No reino de Grimaldi

Que com um simples beijo pode-se aprender um idioma não há dúvida. Você beija uma chinesa, aprende chinês; chupão no alemão, alemão; um estalinho na francesa: oui.

A questão é quando forem comprovadas as propriedades medicinais do beijo, e, conseqüentemente, da língua, o constrangimento da família dessa menininha, na fila de espera por uma lambida compatível com seu pequenino coração.
– Michel Melamed, Regurgitofagia

Segunda-feira partimos na direção contrária. Destino: Mônaco. Se em Cannes já empinávamos os narizes para passarmos despercebidos, lá os elevamos ao nível do torcicolo, correndo riscos reais de vida já que não víamos o que cruzava nosso caminho, mas sem jamais perder a pose. Mônaco, segundo menor país do mundo (depois do Vaticano), paraíso fiscal mais chique da Terra. Você já se sente mais in só de estar lá.

A primeira providência que tomei ao chegar foi procurar um par de óculos escuros que me salvasse da cegueira iminente. Havia perdido meus fiéis óculos rachados em algum ponto do trajeto do dia anterior, e ia entrando em desespero quanto mais tempo passava ofuscado pelo sol de cândida que fazia. Obviamente, estando onde estava, a missão de encontrar qualquer coisa que coubesse no meu orçamento era bem complexa, mas depois de alguma pesquisa quase às cegas no centro comercial comprei um bem vagabundo numa banca de souvenires.

Já que já estávamos por lá, entramos num shopping center dentro de uma montanha, onde acabamos por almoçar. No alto do shopping tinha um museu exibindo a coleção de carros do príncipe, mas consideramos demais pagar pra vê-la, meu primo também fazia o mesmo, só que não eram em tamanho natural. Não sabíamos ainda, mas esse museu destilava a essência da cidade.

Mônaco é um principado que respira a vida de sua família real, não estou bem certo se por opção ou não. Existem ruas e mais ruas do príncipe ou princesa tal, tenho certeza que se um principito não tem a sua deve fazer um ataque de birra até consegui-la. Um dos principais pontos turísticos é a mansão do príncipe, no alto de uma montanha, com vista para o porto. Na praça em frente, uma estátua do primeiro Grimaldi, cuja família até hoje reina sobre Mônaco. E, como ser da realeza não resolve problemas de rejeição e auto-estima, por lei todas as lojas têm que ter um retrato do príncipe Albert III, de preferência na vitrine. Sem brincadeira. Batemos um lero com uma atendente de uma loja, e ela disse que quando o príncipe Rainier morreu todas tiveram que colocar uma bandeira de Mônaco na entrada em sinal de luto, e daí trocaram os retratos do príncipe antigo pelo novo.

Além disso, o GP de Formula 1 também ocupa uma parte importante na imagem da cidade. O mapa que você pode pegar no escritório de turismo vem com as ruas do trajeto demarcadas pra quem quiser percorrer, e existem bancas que vendem retratos dos principais pilotos em vários pontos da cidade, inclusive (ainda) do Ayrton Senna. Não esqueçamos, afinal, que ele ganhou a prova seis vezes.

Mas é inegável que a cidade é linda de morrer. Descendo do palácio do príncipe, entra-se em jardins encarapinhados nos rochedos, tudo muito lindo e bem-tratado, quase caindo naquele mar azul-mentira ao qual nunca se acostuma. Muitas fotos e suspiros depois, contornamos o porto, lotado de iates carésimos, e seguimos para o cassino de Mônaco, um prédio lindo todo em estilo art-noveau, na frente de uma longa praça que deve estar entre as mais bem-cuidadas do mundo, repleta de esculturas modernas e contemporâneas (entre elas um dos relógios do Dali). Mais pra frente, eu e Lud encontramos uma exposição do Romero Britto no shopping Metropole – e devemos ter sido os seres mais empolgados com ela que passou por aquele templo do consumo. Lud fotografou todas as obras, eu algumas, só pra fazer invejinha no povo da Recesso.

Sobe e desce ao longo da costa, passa um parquinho de diversões, tendas de mágicos vendendo equipamento de ilusionismo, fomos chegando em Monte Carlo, cidade gêmea siamesa de Mônaco. Por então já se aproxima das praias, e, ao lado de placas anunciando as grifes que se encontra na rua, vê-se outras que avisam que é proibido andar na rua sem camisa, e apenas em trajes de banho, então, é inconcebível. Afinal, ali, imagem é tudo.

Já meio cansadinhos de tanto andar, resolvemos parar na praia pra quem sabe cair na água um pouco. Sentamos nas pedrinhas, reparamos que ninguém entrava nas águas mais calmas que chá de camomila, e achamos que havia de ter algo de errado nelas. Provavelmente não, apenas nenhum dos pseudo-banhistas queria adicionar o caótico fator água em seu visual, mas por via das dúvidas… Enquanto observávamos as pessoas lindas e bronzeadas a ouro, no entanto, vimos a horripilante figura de uma legítima vítima de anorexia, uma esqueleta de biquíni preto e óculos escuros, cuja pele bronzeadésima embrulhava os ossos e me embrulhava o estômago. Com que músculos ela se movia não sei, porque não se via, mas ela ia se equilibrando de um lado pro outro, e a gente não conseguia tirar os olhos dela, com o mesmo fascínio que se tem por um acidente de ambulância. Entristecedor e deprimente. Tanta gente linda pra gente ver, e não conseguíamos, a mirada sempre voltava praquele cabide vivo que ainda devia se achar muito gorda. Nos estragou tanto a praia que decidimos ir embora dali. Já era riqueza demais pro meu gosto.