Levantando acampamento

Depois de tantos dias de turismo pelos drops marítimos de Côte d’Azur, chegou a hora de iniciarmos os preparativos para nossas partidas iminentes. Lud ainda tinha que comprar coisas e mais coisas para a sua viagem, e eu, sempre feliz em acompanhar, fui ajudá-la a carregar as sacolas.

Dessa vez conseguimos acordar num horário decente e chegamos no Mercado Municipal de Antibes a tempo de pegar as barracas ainda armadas. Com seus conhecimentos culinários aprimorados por meses de cuisine française, Lud ia desbravando as tendinhas todas, provando patês e temperos que eu nunca tinha visto mais gros. Em seguida, voltamos à loja dos azeites, onde Lud voltou a ter seus dilemas por excesso de opção mas, depois de vários momentos de angústia, comprou uma garrafa de azeite francês doce mesmo. Próximo item na lista de compras era uma mochila para que ela carregasse tudo, a qual foi comprada não sem uma boa pesquisa de preços, porque nós somos brasileiros deslumbrados na Riviera Francesa mas não somos tontos.

Lud voltou para casa mais cedo para despedir-se de seu alemão confortavelmente; eu fiquei percorrendo a cidade, para gravá-la na memória e dar tempo aos dois. Eu tinha deixado Angelana Paula pra fazer um check-up na única bicicletaria da cidade no dia anterior; no fim da tarde fui buscá-la, e na hora combinada cheguei no hotel. Os dois tinham se desencontrado, e Lud estava desconsoladamente tentando fazer com que todos os seus pertences coubessem nas malas. Eu também fiz minhas malas compactas, e assim que tínhamos liberado espaço o suficiente, começamos a maior faxina que aquele quarto já tinha visto: Lud tinha que entregar o apartamento às sete, e sempre é bom evitar dores de cabeça. Migramos toda nossa bagagem para o quarto da Ava, amiga e também estagiária que morava no andar de baixo, terminamos a faxina com um belo pano úmido da varanda até a porta de entrada, e não voltamos a colocar os pés sujos lá dentro.

Ocupada e popular como é, nessa última noite Lud foi visitar os outros N amigos e pretês que ela ia deixar na França, enquanto eu fiquei no apartamento da Ava recebendo os recados e as pessoas que iam lá se despedir dela. O alemão enamorado apareceu lá, quase foi embora sem vê-la, mas eu consegui segurá-lo num papo furado em francês tempo suficiente para que se encontrassem na saída. Lud voltou aos prantos depois de uma noite de despedidas, mas no fim foi bom.

Meu despertador biológico anda cada vez mais apurado; no dia seguinte, acordei sozinho a tempo de despertar Ludmilla para que não perdesse seu vôo. Meu trem para Barcelona só sairia à noite, o que me deu mais um dia para matar em Antibes. Passeei mais um tempo a esmo, parei pra ver um cara que tocava violão clássico na rua, e, seduzido pela fada verde, fui pro bar em que tinha sido tão feliz e comprei um vidrinho de essência de absinto (70% de teor alcólico) para misturar nas minhas coca-colas quando estiver no Brasil.

Ludmilla levou consigo o Code Da Vinci que eu vinha lendo; depois de um breve embate interno, na hora de ir embora decidi que era melhor comprar a minha cópia para não ficar sem saber como terminava aquela desgraça. Too bad. Acontece que o comércio no primeiro mundo fecha às sete da noite (loja aberta até as dez só no Brasil, e loja 24h é um conceito quase exclusivo de São Paulo…), as livrarias já tinham todas se fechado. Corri para um supermercado que fazia o esforço de ficar aberto até as oito da noite, fui na seção de livros… e, desacreditei, não tinha uma cópia sequer dessa minha nêmesis que me perseguiu por anos, mas quando eu fui atrás dela me eludia. Para ter-se uma idéia do prestígio da nossa literatura na França, no super tinha TODOS os livros do Paulo Coelho devidamente traduzidos, mas nada do Dan Brown. Quase em pânico com a possibilidade de uma longa viagem de trem sem nada pra ler, comprei dois livrinhos cujo autor aparentemente era francês legítimo e que aparentemente não era uma das Sabrinas da vida.

O autor (ou autora? O ser assina apenas como Cavanna) parece ser francês mesmo. Já a história…