Nota breve

Não obstante, escrevia frustrado e pesaroso, encontro-me colocado perante uma contradição que não vejo forma nenhuma de solucionar, que duvido mesmo que haja para ela resolução possível, e é que se é certo que todos os vectores da metódica e minuciosa análise grafológica a que procedi apontam a que a autora do escrito é aquilo a que se chama uma serial killer, uma assassina em série, outra verdade igualmente irrefragável, igualmente resultante do meu exame e que de algum modo vem desbaratar a tese anterior, acabou por se me impor, isto é, a verdade de que a pessoa que escreveu esta carta está morta. Assim era, de facto, e a própria morte não teve remédio que confirmá-lo, Tem razão, o senhor grafólogo, foram as suas palavras depois de ler a erudita demonstração. Só não se compreendia como, estando ela morta, e toda feita de ossos, fosse capaz de matar. E, sobretudo, escrevesse cartas. Estes mistérios nunca serão esclarecidos.
    – José Saramago, As intermitências da morte