CS: Monte do Gozo – Santiago de Compostela

Trem em algum lugar da Espanha, 19:37h

Missão cumprida.

Saí do Monte do Gozo um pouco antes de amanhecer, por volta das oito horas. Não imagine nada bucólico; a conurbação acontece até mesmo em trilhas de peregrinação, e mal se vê um matinho entre as ruas e calçadas que levam do Monte até Santiago. Diz a lenda que de onde eu saí daria pra ver a catedral de Santiago ao longe, ponto em que os peregrinos antigos caíam de joelhos e choravam de emoção, mas eu não consegui ver nada. Mas segui a tradição e desci o morro cantando; já tinha seguido todas as outras, não ia deixar essa de fora.

Entrada de Santiago de Compostela, começando a amanhecer.

Foram mais duas horas e pouco caminhando dentro da cidade até chegar na catedral. Em Santiago segue-se uma calçada amarela que te guia por esse restinho de caminho; você se sente praticamente indo pra Oz. Santiago é bastante grande, cheia de trânsito e prédios que tanto me apetecem. Entre uma avenida e outra acabei me perdendo um pouco, já que a calçada amarela não é tão presente assim, mas já tinha perdido o receio de perguntar faz tempo, encontrei uma senhora que ia pro mesmo lado que eu, e fomos conversando por boa parte do caminho, até ela me deixar num ponto sinalizado.

Cheguei na catedral por trás. Ela fica apertadinha no centro histórico de Santiago, cercada de turistas por todos os lados. Já tinha visto várias marcas de ferradura no Caminho, mas foi só lá que vi cavalos e cavaleiros. Decidido a apenas colocar o pé dentro da igreja passando pelo Portal da Glória, fui rodeando a catedral, passando por várias entradas, até encontrar a mais escondidinha e acanhada: lá era a famosa porta pela qual os peregrinos passam para se livrar de todos os seus pecados. Debaixo da chuvinha chata e persistente que me acompanhava há vários dias, passei pelo portal para bater com o nariz num monte de turistas que se apinhavam lá dentro. Não consegui encontrar sequer um cantinho pra encostar e refletir um pouco, então resolvi sair e voltar lá mais tarde.

Peregrinos a cavalo na praça da catedral.
A fachada da catedral, debaixo de chuva.

Andei montes e montes tentando encontrar um telefone público. Quando finalmente o encontrei, liguei pra Campinas pra dizer que tinha chegado, e acordei o Anselmo, que me informou meio mal-humorado que eram cinco da manhã, a mãe estava em Bauru, e ele não tinha o telefone da tia Lygia, e que eu ligasse quando a mãe voltasse, no dia seguinte. Vendo minha chegada apoteótica murchar, resolvi ligar pra Araraquara, acordei a tia Nilva, mas consegui o telefone da tia Lygia. Então, temendo que o cartão telefônico acabasse, liguei pra Bauru, acordei a tia, que meio sonada chamou minha mãe, e falei com ela até acabar o cartão, contando da minha chegada.

Dali fui para a oficina de peregrinos fazer meu certificado. Ganhei um diplominha em latim que se refere a mim como Martius, dizendo que fiz a peregrinação em ano santo. Deixei minha mochila lá e fui finalmente procurar algo pra comer. A chuva ainda insistia em cair quando, já alimentado, pude encarnar o turista e começar a explorar a catedral e arredores.

A igreja é supergrande, e ao redor dela se espalham várias barracas de camelô vendendo lembranças, terços e camisetas. O fluxo de gente é constante. Na parte inferior da igreja tem um museu do peregrino e uma loja oficial. Suas paredes são escuras, e ela não tem o jeitinho restaurado-estalando-de-nova das catedrais de Burgos e Léon.

Detalhe da fachada da catedral.

Fiquei andando meio a esmo até um pouco antes de começar a famosa missa do meio-dia. A nave da igreja estava lotadíssima de gente (isso porque já não era mais “alta temporada”, imagino como aquilo fica no verão), não tinha sequer onde sentar. Assisti a missa de pé, encostado num pilar, acompanhando o que acontecia no altar por um telão. As missas em espanhol são inteiras meio cantadas, o padre entoa tudo o que em português se fala. Foi só durante a missa que começou a realmente baixar em mim o que eu tinha conseguido fazer, que eu tinha finalmente chegado em Santiago, atingido o objetivo da minha caminhada. Comecei a pensar no que tinha mudado nesses dias, lembrar de todas as reflexões que tinha feito passo a passo, resoluções que pretendia seguir. Comecei a ficar todo comovido, equilibrando lágrimas nos olhos, me sentindo mais próximo com o divino… quando olho pro lado e percebo que está começando a cerimônia do botafumero, um incensário gigante que quatro padres balançam de um lado pro outro da catedral. A necessidade de fotografar tudo dominou o momento comovido, e imediatamente estava eu de pé tentando conseguir um ângulo decente pra registrar aquilo.

Órgão dentro da igreja.
A nave da catedral, apinhada de gente.
Um telãozinho na lateral pra gente conseguir acompanhar a missa.
Oito padres puxando a corda do botafumero.
O botafumero, rodeado de padres.

Andei um pouco mais dentro da igreja depois de terminada a missa, e daí resolvi ligar pra estação de trem e pra estação de ônibus pra descobrir quando saíam os transportes pra Barcelona, onde queria ir pra visitar a Déia Moroni. Liguei crente de que haveriam saídas de hora em hora, apenas pra descobrir que havia um único trem e um único ônibus saindo de Santiago pra Barcelona, o primeiro saindo às três e meia, e o segundo, às três horas. Eram duas e quinze, dava tempo de sobra pra entrar na catedral de novo, ver o túmulo do apóstolo Tiago e me mandar pra estação de trem.

Detalhe de uma das colunas da entrada frontal da igreja.
A imagem de Santiago que todos abraçam por trás, no alto do altar.

Daria, não fosse pela fila quilométrica que havia se formado na frente do Portal da Glória, por onde se chegava na tumba. Começando a me desesperar, entrei na fila. O que faria? Não podia ir embora sem ver o túmulo do apóstolo, não tinha andado 700 quilômetros pra voltar sem isso. Mas se ficasse na fila, com certeza perderia o trem. Se perdesse, só poderia pegar outro trem pra Barcelona no dia seguinte, e chegaria lá apenas no outro dia, pra pernoitar por lá e já tomar um ônibus pra Madrid na noite seguinte. Não valia a pena. Mas, então, se ficasse esses quatro dias restantes em Santiago, que diabos faria naquela cidade? Estava remoendo essas questões a quinze minutos já, numa fila que não se movia, quando me baixou uma inspiração, olhei pra saída desse circuito da tumba, e tinha uma freirinha saindo. É essa mesmo, pensei.

A frente da catedral, já com menos chuva.
Fila quilométrica pra ver a tumba do apóstolo.

Saí da fila, andei algumas centenas de metros até ela, e expliquei o melhor que podia que era peregrino, tinha vindo do Brasil, caminhado 700 quilômetros, tinha um trem pra pegar às três e meia, mas a fila não estava andando, e eu não poderia ir embora sem ver a tumba do apóstolo, mas também não podia perder o trem. Será que não tinha como me dar uma ajuda? Ela olhou bem pra mim, respirou fundo, e disse “a gente não devia fazer isso, mas vem aqui!”. Me pegou pela mão, entrou pelo caminho por onde tinha saído, chegou na escadinha atrás do altar, levantou a cordinha que organizava a fila e explicou minha situação para as pessoas, que me deixaram furar a fila. Abracei a estátua de Santiago, fiz meus pedidos, desci de trás do altar, desci outra escada, cheguei na tumba, vi o túmulo do apóstolo (bonito e simples, todo prateado), rezei rapidinho e saí. Fiz tudo o que tinha que fazer em dez minutos. E a fila não tinha andado ainda.

Um padre que estava na minha frente na fila pra tumba, abraçando a imagem de Santiago.
O túmulo do apóstolo, entre barras.

Dali, o tempo urgia. Fui correndo pra oficina de peregrinos resgatar a mochila, descobri como chegava na estação de trem, e no caminho até lá parei em algumas lojinhas comprar os souvenirs que me faltavam. Cheguei na estação quinze minutos antes da partida, comprei os bilhetes (um de Santiago até A Coruña, outro de A Coruña até Barcelona) e tomei rumo.

Realizado e cansado, no trem para A Coruña.

Os trens são confortáveis e limpinhos. O primeiro era de assentos normais; o outro era leito, com seis pessoas por cabines, que se instalavam num esquema meio beliche. Na minha cabine tinha um cara que estava voltando da marinha, vestido que nem o Pato Donald, e um outro peregrino, um cara do Zimbábue chamado Andrew. Ficamos trocando figurinhas da viagem por um bom tempo.

É meio estranho fazer a distância que percorri durante 23 dias toda em doze horas.

One Response to “CS: Monte do Gozo – Santiago de Compostela”

  1. Klediane

    Vou amanhã a Santiago de compostela pela segunda vez e pretendo desta vez abraçar o túmulo, mas não sabia do certificado ao qual se refere. Onde fica aoficina especificamente? Gostei muito da sua experiência, interessante sua entrega. Beijos.