CS: Melide – Monte do Gozo

Monte do Gozo, 20:13h

Hoje eu me provei que fiquei pró mesmo nesse negócio de andar.

O resto da caminhada ontem foi solitário e sem maiores percalços. O ponto alto do dia foi quando, depois da chuva ter começado e parado algumas vezes, começou a chover granizo. Era só o que faltava. Agora eu posso dizer que já enfrentei todo tipo de intempérie nesse caminho, tirando neve.

O albergue em Melide, onde parei, era mediano. Num quarto tinha uma família de franceses cheia de pirralhos loirinhos. Com meu francês recalcitrante, perguntei a um dos garotos o que significava aquilo e ele me explicou que a família inteira dele estava fazendo o Caminho. Não quis estragar o clima familiar de alvoroço e fui pra outro quarto. Lá encontrei outra brasileira, que está fazendo o Caminho pela segunda vez, sem a menor pressa. Queria chegar em Santiago dia 4, mas lamentava que provavelmente não conseguiria enrolar tanto e acabaria chegando antes.

Tomei banho num banheiro misto muito despudorado, que te deixava sujeito à observação de quem passasse na frente de sua cabine sem porta, fiz uma janta enlatada e me deitei pra ler a Crónica de una muerte anunciada, que comprei. Depois fiz algumas contas, e cheguei à conclusão de que, se seguisse o superguia, ia ter que acordar muito cedo no dia final pra chegar em Santiago a tempo de pegar a missa do meio-dia.

Durante a noite, sonhei que estava em Campinas com a minha família, e ficava desesperado de como ia voltar pra Espanha e chegar em Santiago sem pegar transporte nenhum, tinha tudo ido por água abaixo, 20 dias de caminhada jogados fora, até que despertei meio sobressaltado e me tranquilizei de que ainda estava na Espanha.

Amanhecer no albergue de Mélide, todos juntando os trapinhos na reta final.

Hoje de manhã decidi caminhar até Monte do Gozo. Seriam 46 km, mas poderia acordar no dia seguinte tranqüilo de que nada me faria perder a missa.

A menor cidade de todas que eu vi. Tem exatamente quatro casas, e não conseguia sequer ocupar o outro lado da rua..

Não foi fichinha, choveu praticamente o dia inteiro, mas os pés estavam bem, a bota resistiu à água, não ventou muito, consegui chegar no Monte do Gozo antes que escurecesse totalmente, molhado, cansado e realizado.

Lindas paisagens dividindo o caminho.
Florestas de eucaliptos e samambaias..
Marco de que estamos chegando na “Grande Santiago”..
O aeroporto de Santiago, atrás do qual o Caminho passa, a caminho do Monte do Gozo.

Monte do Gozo é uma cidadezinha satélite que se especializou em receber turistas com as mais diferentes intenções e destinos. O albergue fica num complexo enorme, num dentre vários barracões destinados a receber turistas. A permanência no primeiro dia era de graça, a partir do dia seguinte você tinha que se mudar para outro barracão e pagar hospedagem. Claro que, só pra judiar um pouco, o barracão dos peregrinos era um dos mais distantes da entrada, depois de uma escadaria enorme e de uma superladeira, enfrentados por mim sob chuva de dilúvio e mau humor. Comprei os víveres no mercado do complexo (nada que necessitasse ser esquentado) para que não tivesse que sair do prédio depois que me instalasse. Felizmente, a água do chuveiro estava angelicalmente quente, e assim meu estado ranzinza escorreu ralo abaixo.

Um pacote de Oreos e biscoitos Príncipe como recompensa por ter feito 46 km nesse dia.
O pessoal que ficou no meu quarto no albergue em Monte do Gozo.

Amanhã, Santiago.