Gonzar, 9:23h
Foi bom me desvencilhar da Shana, porque eu cheguei em Triacastela cinco e pouco, tentei descansar, me senti fedido, tomei um banho, fui no supermercado, voltei, já estava comendo, de noite, quando ela chegou. Não dá, assim.
No meu quarto no albergue tinha um casal de brasileiros por volta dos 50 anos, o Manuel e a Norma, que vêm de Sergipe. Gente boa, me passaram o endereço deles no Nordeste caso um dia eu passe por lá.
 |
| Pouco depois de sair de Triacastela. As chuvas do dia anterior derrubaram essa árvore, que ficou atravessada no Caminho e fez o pobre peregrino, com 10 quilos de mochila nas costas, pular dois muros pra dar a volta nela. |
|
Tinha que fazer 41 km no dia seguinte, então parti cedo, ainda de noite, por volta das 7 da matina. A Shana saiu antes de mim e eu não cruzei com ela de novo, sei lá por onde ela ficou.
 |
| Monumento modernoso ao peregrino, em Sarria. |
|
Cheguei em Sarria às 11:40h, um pouco depois do que eu queria, almocei e saí de la por volta das 12:40h. Sarria é a última cidade antes da marca dos cem quilômetros para Santiago, que é a distância mínima que um peregrino deve percorrer, então ela tira proveito disso de todas as maneiras, tentando convencer os preguiçosos a começarem a jornada lá e fazerem o mínimo necessário. Passei pelo marco de 100 km até Santiago quase uma hora depois. Foi bem emocionante, comecei a me dar conta de que estava chegando. Também passei por vacas, pastando bucolicamente, algumas andando na rua, mas não tive o receio de que estourassem e me pisoteassem até a morte como a Shana temeu no dia anterior.
 |
| O marco de 100 quilômetros, cheio de manifestações. |
|
 |
| Eu, todo satisfeito e bronzeado, fazendo contagem regressiva. |
|
Cheguei surpreendentemente cedo em Portomarín. Fui seguindo o Caminho e passei reto pela cidade, a sinalização da entrada deixou a desejar. Depois de andar um pouco, voltei, e daí fui pedindo informações até encontrar o albergue municipal, que era bem escondido. Meia hora depois, já a caminho do supermercado, perguntei que horas eram e me responderam 17:45h, para o meu pasmo. Impressionante, devo ter feito uns 5 km por hora.
Como tinha cozinha, resolvi jantar um omelete. Cheguei cheio de ingredientes do supermercado, só pra descobrir que o lugar, de tão novo, mal tinha panelas, e nada de garfo e faca. Fui pedindo pra um e pra outro, fiz a omelete numa panela gigante, ficou feio mas aceitável.
Terminei de ler El Plan Infinito, da Isabel Allende, meu primeiro livro em espanhol. Muito bacana, me identifiquei com o Gregory Reeves em vários momentos, principalmente quando ele ignora os defeitos da esposa pra tentar fazer a relação dar certo de qualquer jeito, e quando admite o medo da solidão.
 |
| No final, florestas e mais florestas. |
|
Madruguei hoje também, afinal eram mais 40 km, mas já não tinha mais medo da distância. Infelizmente, como as coisas não podem ser simples, começou a chover meia hora depois da minha partida, e a chuvinha virou um toró. O impermeável da minha bota falhou pela primeira vez, e eu conheci mais uma sensação inédita, a de andar com os pés cheios d’água. Andei 8 km e parei aqui no albergue de Gonzar pra me secar um pouco e trocar de meias. Como está quentinho e os aquecedores ainda estão ligados, parei pra darum update no diário enquanto as coisas secam no aquecedor e, se tudo der certo, daqui a pouco a chuva diminui. Está ventando de um tanto que as janelas estão uivando. Tirei um copo d’água cheio de cada bota. Tô com um soninho, queria dormir… Coragem, faltam só mais 32 km hoje, e depois de amanhã você está em Santiago.
 |
| Virgem e Menino Jesus com cara de quem consumiu drogas pesadas. |
|
 |
| A vida é um musical para o monumento ao peregrino de Palas de Rei. |
|
 |
| Que satisfação, 65 km pra Santiago. |
|
 |
| Apenas mais uma de inúmeras cidadezinhas de uma rua só pelas quais eu passei. |
|
 |
| Registrando as bolhas feitas no Deoclécio. |
|
 |
| As do Anacleto também, pra ele não ficar com ciúmes. |
|