CS: León – Hospital de Orbigo – Rabanal del Camino

Rabanal del Camino, 21:42h

O tchans mesmo da catedral de León são os vitrais.

A Catedral de León é linda mesmo, tem vitrais fora de série, mas gostei mais da de Burgos. Demos sorte de trombar com um guia que estava dando um tour prum grupo de velhinhos turistas em ingês, acompanhamos eles uns bocados na maior cara-de-pau, só me deixava afastar deles pra tirar fotos escondido. Assim descobri que os vitrais do lado norte têm cores quentes e as do sul, frias; que no século XVI acharam que uma área da catedral era muito simplezinha, então a encheram de adornos típicos da época; que, 400 anos depois, essa estrutura não aguentou o peso e ruiu, destruindo os vitrais desse pedaço, que tiveram que ser recriados do zero por artistas do século XX porque não havia registros de como eles eram; que a principal diferença dos vitrais do século XII pros do século XVI é o tamanho dos vidrinhos, menores no primeiro, porque em 1100 se pagava os trabalhadores com comida, então podia levar o tempo que fosse, mas em 1500 já se pagava em dinheiro, que era pouco, então o bispo mandou largar de frescura e usar vidros maiores que era mais rápido; que se usa ouro pra fazer vidro vermelho, então quanto mais vermelho tem um vitral, mais ele custa no seguro; que uma imagem da Maria Embarazada ficou escondida por séculos, porque o povo tinha dificuldade pra entender como Maria era virgem e podia ser grávida.

Mais vitrais, em fotos proibidas.
O altar da igreja, depois do que me chamaram a atenção.

Acabamos saindo bem tarde de León, às onze horas, e encontramos a Cary, da Noruega, no caminho. Ela tinha comido comida estragada dias atrás, e tinha ficado em Carrión um dia a mais, depois pegou um ônibus para León, esperou mais um dia e estava recomeçando sua peregrinação.

Eu prestando solidariedade a um monumento na calçada.
E bizoiando o monumento ao pintor.
Aqui, controlei meu ímpeto de calçar as sandálias da humildade do monumento ao peregrino.

Andamos 35 km nesse dia, o que foi normal no novo projeto de chegar logo. Liguei pra casa no fim da tarde e fiquei morrendo de saudades. Compramos os víveres da janta, já que as lojas em breve fechariam, e continuamos andando. Quando ainda faltavam 4 km pra chegar, anoiteceu. No começo achei muito lindo andar à luz do luar, mas a Shana me lembrou, com sua paranóia americana, que estávamos no meio do nada, e que a qualquer momento podia aparecer alguém e fazer algo com a gente. Começamos a andar rápido como há muito não andávamos, eu com uma sacola de compras em cada mão, ela segurando um spray de pimenta para revidar a quem nos atacasse, e a Cary se arrependendo que tinha se deixado levar pela gente.

Anoitecer na estrada, antes de entrar na nóia da Shana.

Mas chegamos bem em Hospital de Órbigo, por volta das nove da noite. Depois de procurar um tanto, encontramos o albergue. O lugar era frio e a mulher cobrou 3 euros pelo que devia ser de graça, mas a gente não tinha forças pra ir pra outro lugar. Pelo menos a água era quente, apesar de sair de um negócio do tamanho de um chuveirinho. A Shana conseguiu fazer a janta no fogão precário que tinha lá (“Até um isqueiro seria melhor que isso aqui”, disse ela), eu saí pra comprar bebida, um louco na rua me deu um puta susto, comprei um vinho no bar ao lado mesmo e jantamos os três antes de dormir.

Antes de partir voltamos alguns metros para ver o grande atrativo histórico da cidade, a ponte sobre o rio Órbigo. Diz o superguia:

El suceso histórico que le dio fama ocurrió en 1434, año jubilar, desde 15 días antes hasta 15 después de la festividad de Santiago (25 de julio). El caballero leonés don Suero de Quiñones dispuso un torneo en el que retaría a todo caballero que transitara por la ruta a romper tres lanzas contra él y nueve ayudantes. La excusa: una obligación de amor hecha a cierta señora por la que se comprometía todos los jueves a ponerse una argolla de hierro en torno al cuello y de la que quería librarse. Durante un mes, don Suero y sus mantenedores guerrearon con quien se ponía a su alconce. Cumplida la bravuconería, en la que sólo murió un caballero catalán a quien en un desliz le entró la lanza por el ojo, peregrinaron todos a Santiago, donde don Suero donó al apóstol un brazalete de oro de la desconocida dama.

A famosa ponte sobre o rio Óbigo.

Fizemos mais 34 km hoje. A Cary tava de saco cheio e acabou andando só 17, ficando em Astorga. Essa cidade já foi muito importante pros peregrinos na Idade Média; chegou a ter 25 hospitais de peregrinos, mesma quantidade de León, mas com apenas 1500 habitantes, dez vezes menos que a capital. Tanto que, como neles se dormia de graça, contrataram veedores, carinhas cuja função era percorrer os hospitais de noite e conferir quem estava lá, pra que o povo não ficasse morando de graça nos hospitais, dormindo em um diferente cada noite.

Registrando uma paradinha em San Justo de la Vega.

A cidade ainda é bacana. Passamos por uma catedral que demorou 300 anos pra ficar pronta, razão pela qual, suponho eu, tem uma torre de cada cor, e pelo Palácio Episcopal, feito por Gaudi. Mas não ficamos muito tempo por alí porque tínhamos muito o que andar.

Palacio Episcopal, do Gaudí.
Meson Cowboy perdido em El Ganso.

Pisamos no acelerador e andamos mais 20 km até Rabanal del Camino. Quando chegamos lá, era quase de noite, o albergue municipal estava cheio, então fomos pra outro, que cobrava 5 euros, mas era muito bacana. Comemos nele mesmo, e bem.