Aos poucos eu devo estar adquirindo uma cara de nativo: durante minhas caminhadas e pedaladas por Antibes e arredores, volta e meia para alguém que me pergunta em francês como se faz pra chegar em lugar tal ou tal. Fico muito orgulhoso por alguns mili-segundos, já que deve significar que eu consigo me fazer passar por alguém endinheirado cuja excentricidade é usar uma camiseta mulambenta e desbotada, mas a fachada noveau-riche desmorona quando, num francês vacilante, eu respondo que não faço a menor idéia de onde seja o tal lugar.
Provando que somos quase incapazes de aprender com nossos erros, Lud e eu acordamos tarde domingo de novo. Mesmo assim, decidimos que iríamos a Cannes, algo que já programávamos há dias. Pegamos um ônibus rumo ao sul e, em vinte minutos, pisávamos na cidade do festival de cinema, empinando os narizes para não nos sentirmos excluídos.
Quem quer que seja que teve a idéia de fazer o festival de cinema em Cannes devia ganhar uma estátua no lugar de maior destaque possível, mas inaugurar estátua deve ter ficado demodê há muito tempo. Tudo lá faz referência a cinema: calçadas com as listas de vencedores, escadaria de hotel repetindo a mesma lista entre um degrau e outro, cabine telefônica em forma de filme… O festival move a economia de uma cidade que de outra maneira seria apenas mais uma cidade linda entre tantas. Suvenires de filmes, lojas especializadas em cinemas, e os hotéis mais chiques florecem por conta do evento. No resto do ano outros festivais e congressos ocorrem por lá, mas é inegável que seu maior atrativo é o festival.
Batendo perna como sempre, visitamos o prédio onde a festa ocorre, mas desistimos de tirar uma foto no tapete vermelho porque a quantidade de turistas competindo pra tirar a mesma foto era tão grande que mal se via o tapete, e facilmente o único vermelho que se veria em pouco tempo seria do sangue derramado pelas pessoas que lutavam para tirar foto primeiro. A avenida à beira-mar em Cannes tem todas aquelas lojas que eu já cansei de enumerar nesses relatos, com seus lânguidos vestidos que custavam módicos 1600 euros. A cada uma dessa que a gente passava, minha camiseta desbotava mais um pouco.
Quando se aproximou o fim da tarde, resolvemos tomar um solzinho; desviamos da praia paga, fomos na de grátis e nos acomodamos o melhor que podíamos. De nada valeu nossa alegria e tez brasileira, nem nossos olhares promíscuos, não conseguimos seduzir ninguém e nossas esperanças de dar um golpe do baú na Riviera Francesa se afundaram nas pedrinhas da praia. Pegamos o bumba de volta pra Antibes debaixo de chuva, tão solteiros (ou pseudo-comprometidos, no caso da Lud) quanto antes, mas não de todo derrotados porque mais oportunidades surgiriam no dia seguinte.