Estado interessante

Num desses acessos de paranóia que tanto cabem aos ditadores, o generalissimo Franco, em seus tempos de Guernica e outros crimes contra a consciência limpa, resolveu que corria-se o risco de que as nações vizinhas invadissem o soberano espaço espanhol… de trem. Para evitar tal ultraje, ele fez com que os trilhos das estradas de ferro espanhola fossem mais estreitos que os trilhos usados no resto do mundo, garantindo que apenas trens espanhóis conseguissem correr sua grande fatia da península Ibérica.

As consequências disso são: no Brasil, por uma dessas idiossincrasias que tanto nos caracterizam, metade dos trilhos foram feitos segundo o padrão inglês (e mundial), e outra metade foi feita seguindo o padrão espanhol, o que faz com que a integração da malha ferroviária impossível; e, quando se viaja de trem para a Espanha, não existe trem expresso, sempre tem que se parar na fronteira, ir para o outro lado da estação e pegar outro que te leve a seu destino. Foi assim que numa madrugada fria lá estava eu de novo fazendo mais uma dessas manobras que tanto caracterizam essa minha viagem, carregando bicicleta e malinhas de uma plataforma para outra a fim de chegar naquela manhã em Barcelona.

Não era a primeira vez que eu punha meus pés nessa cidade; depois que fiz o Caminho de Santiago eu estiquei até lá, e um ano depois eu aproveitei uma semana em que as coisas estavam mais tranquilas para retornar enquanto ainda era verão. Em todas as vezes (incluindo a atual) minha super anfitriã era Andréia Moroni, colega de faculdade e amiga para toda a vida, menina de planos tão destemidos quanto eu. Foi quem me inspirou a fazer o Caminho de Santiago; do meu círculo de amigos, foi a pioneira em se casar, a pioneira em migrar para estudar em terras estrangeiras, e a pioneira em se divorciar. Quando, há seis anos, eu pedi sua barraca de camping emprestada para que eu fosse passar o carnaval em Trindade, não imaginava que iniciava uma amizade que daria tantos frutos.

A novidade dessa visita é que, dessa vez, Andréia desbrava mais um limiar da vida antes de todo mundo, e está mais que levemente grávida. Quando cheguei em seu novo velho apartamento no centro de Barcelona, JP, o pai da criança, foi me receber nas escadas, enquanto Andréia me esperava redonda na porta do apê. Nas visitas anteriores a gente já tinha discutido seus planos de adentrar a horda das mães tatuadas e modernas, e pude ver imediatamente que ela estava cumprindo suas promessas: me abraçou vestindo um top que deixava a superbarriga à mostra, com o tigre que ela tem tatuado nas costelas já levemente deformado e um piercing colorido no umbigo, a esse ponto já totalmente distendido. Me instalaram no que será o quarto de Mateo, o rebento, e tudo indica que JP e Déia serão os pais mais legais de todas as galáxias: no berço, um ursinho se escondia de vários aliens de pelúcia que dominavam o quarto.

Barcelona é uma cidade linda que sempre me faz feliz por simplesmente estar lá. Seus cruzamentos octagonais e ruas largas enchem-na de sol, os prédios do Gaudi a temperam com um sabor único, as ramblas chamam para que se esqueça as preocupações da vida. Apesar de ser uma cidade costeira, as partes legais da cidade estão longe do mar; na verdade, para se pegar uma praia em Barcelona necessita-se um esforço razoável. Eu já tinha conhecido os principais pontos turísticos da cidade (Parque Guell, Catedral da Sagrada Família, Bairro Gótico…) nas minhas outras visitas, então nessa minha estadia apenas me dediquei a percorrer a cidade montado na Angelana Paula, situar tudo em meu mapa mental, e torrar nas praias o máximo possível.

Déia mora em Gracia, região muito bacana e central de Barcelona, e que, justo no dia em que eu cheguei, estava iniciando seu tradicional Festival de Gracia, em que os moradores das ruas decoram suas calles (ou, sendo apropriadamente catalão, carrers) com temas de sua própria invenção, para uma semana de festa de rua e música. Feitas em geral com sucata, as decorações iam do cafoninha ao bem bolado, mas sempre divertido e entertaining. Várias noites, num de ja vu da minha noite em Cambrai, eu ouvia bandas de alguma rua dos arredores cantarem animadamente sucessos do Roxette com sotaque castelhano.

Os espanhóis almoçam às quatro da tarde e jantam quase no dia seguinte; Déia e JP já tinham se adaptado aos horários, mas eu custei um pouco. Mas valia a pena: JP, sendo mexicano, cada dia agraciava sua esposa e o hóspede intrometido com delícias de sua cozinha natal, que me faziam lavar a louça com alegria. Nos momentos de ócio, eu assistia aos seriados enlatados devidamente dublados em castellano, e assim me diverti imensamente assistindo Embrujadas, Perdidos e Mujeres Desesperadas. Tirando isso, tive mais uma prova de que a rede Globo está entre as melhores do mundo, a TV aberta espanhola dá vontade de chorar. Mas nada ainda bate o desleixo da TV italiana.

Depois de uma semana de minha presença na casa, Rolando, um amigo de JP, chegou para visitar o compadre antes de retornar a Guadalajara. Eu me transladei para a sala, e aumentei meu convívio com Chope, o gato amigo. A chegada do Rolando deu novos ânimos para os passeios, e continuamos a sair para comer tapas à noite. Um dia nós três e meio visitamos um museu científico no alto dos morros de Barcelona que apresentava um pouco de tudo, desde biologia até f&isica;, incluindo uma mini mata alagada onde descansava impávida uma capivara brasileira, bicho que os olhos mexicanos de JP nunca tinham visto. Me surpreendi me empolgando com os experimentos que o museu oferecia para explicar o mundo na prática, desde a quinta série que eu não passava por isso.

Ao fim de vários dias de reflexões e cálculos mentais, resolvi que gastava a mesma coisa e seria mais útil descartar minha passagem de Air France e tentar comprar uma outra que me levasse antes para o Brasil. Foi assim que depois de alguma pesquisa internética no meio de agosto, comprei um bilhete de TAP saindo de Lisboa para São Paulo na semana seguinte. Uma mudança de planos tão súbita que até eu passei alguns dias atordoado, mas que foi comemorada com iupis! e uhuuus! saltitantes da Ana Paula, lá no Brasil.

Meus últimos dias de Barcelona passaram voando, e seu grande barato foi filosofar com a Déia e acompanhar o desenvolvimento de Mateo, o rebento. O garoto está enorme, e depois de uma visita ao médico ela voltou com a notícia de que ele provavelmente nasceria duas semanas antes do previsto. Estava com ela no metr&oacirc; quando ela me anunciou que estava tendo contrações, as quais continuaram até a noite, mas felizmente, depois de que JP a levou para a maternidade levemente preocupado, não passaram de alarmes falsos ou, como bem disse a Déia, um ensaio geral para a grande noite. Ela ainda não se acostumou ainda com o conceito de dar leite e morre de vergonha cada vez que os peitos escorrem, e não tem defesa minha a favor do conceito da vaca das divinas tetas que a faça parar de ficar constrangida.

Foi com o aperto no coração de sempre que exatamente duas semanas depois de chegar eu me despedia da Déia em plena madrugada, para partir a meu destino final antes de retornar ao Brasil. Ficou a promessa de retornar assim que possível, para matar a saudade, conhecer Mateo ex utero e dar uma força à Déia em seu propósito de fazer que esse moleque, que vai nascer com três nacionalidades e que vai ter que aprender duas línguas para sobreviver em Barcelona, ainda aprenda português. Espero que seja em breve.