Eu estou descobrindo uma força de vontade que eu não sabia que tinha.
Sempre achei que o melhor horário para se fazer esporte era bem de manhãzinha, antes de qualquer outra coisa. Você já faz seu exercício logo e fica com a consciência limpa e sem maiores impedimentos para o resto do dia. Sim, tudo bem que a gente só fica com a consciência pesada por não ter feito exercício por causa do padrão de beleza vigente e da inquisição da saúde, mas isso não vem ao caso. Fazendo-se exercício cedo, você não precisa interromper o trabalho para malhar, ou não deixa de fazê-lo porque está exausto à noite: você já fez.
Agora a diferença entre achar uma coisa e realmente fazê-la é bem grande. Esse semestre eu resolvi colocar a filosofia em prática e me inscrevi para as aulas de remo das seis às oito da manhã, de segunda, quarta e sexta. O olhar de descrença que as pessoas me davam quando eu comentava isso já não era muito encorajador, mas eu resolvi provar que conseguia fazer uma loucura dessas. Afinal, o plano em teoria era perfeito: eu faria uma hora a mais de remo que no semestre passado, mais vezes por semana, num horário em que não tinha desculpa nenhuma para não fazê-lo.
Quando se vê a logística do empreendimento, as coisas ficam mais difíceis. Como eu não tenho carro, dia de remo significa acordar às cinco e vinte da manhã, botar a mochila nas costas e pegar um busão pra USP, para chegar lá mais ou menos às seis. No começo não é tão difícil, mas, quando isso começa a se tornar rotina, abandonar o quentinho do leito para ir até a USP encarar o vento inclemente da raia de remo se torna cada vez menos atraente.
Além disso minha classe de remo não ajuda nada. Primeiro porque o professor sempre chega atrasado e prefere largar os alunos para se exercitarem sozinhos. Eu fico vendo a turma de canoagem, que tem um professor que orienta, alonga e tudo mais, e morro de inveja. Depois que tem exatamente três pessoas na minha turma de remo. Ou seja, é muito fácil um ficar doente e o outro com preguiça, e eu muitas vezes acabo sozinho. Já seria triste de qualquer maneira, mas no remo é muito pior, pois não dá pra carregar o barco pra água sozinho, e sem colegas de classe eu não tenho pra quem pedir ajuda. Não tem situação mais besta do que terminar de dar uma volta, chegar na plataforma e ficar lá torcendo pra alguém aparecer. Não pode abandonar o barco na água, mas não dá pra carregar sozinho, tem-se que depender da bondade alheia e de gritos direcionados pra arranjar alguém que venha compartilhar a carga.
Em compensação, depois de treino e banho, eu chego pra trabalhar na Com-arte todo disposto e cheiroso (se bem que, às cinco da tarde, eu já estou quase dormindo em cima do teclado). E várias pessoas já comentaram de como eu estou ficando fortinho.
Outro efeito colateral dessa rotina tão saudável é que dá dez da noite e eu já estou dormindo, algo impensável há alguns meses. É mais forte que eu. Tantas horas de sono, no entanto, não ajudam nada na hora de acordar para mais uma seção de exercício.
Eu estou agora adotando um lema quase AA para me forçar a sair da cama. O despertador toca, meu primeiro impulso é desligá-lo e virar pro lado, daí penso "NÃÃÃO, LEVANTA LOGO!". Daí reflito que tá mó frio, já estou meio atrasado mesmo e que uma falta não faz mal, mas daí me vem o grilo falante dizendo "SE VOCÊ FALTAR AGORA, VOCÊ VAI FALTAR SEMPRE!! E SABE O QUE VIRÁ COM ISSO? PNEUS!!!". Daí eu gasto meus últimos pontos de willpower, resignadamente me levanto, me visto e vou pro ponto de ônibus, deixando a minha primeira falta do remo para dali a dois dias. Já vem funcionando faz umas três semanas…