Eu sou um ardente seguidor do ditado "de graça, até injeção na testa". Pego amostra grátis de qualquer coisa que estejam oferecendo, participo de qualquer teste de paladar que encontrar e sempre pego um pedacinho ou dois de pretzel que as mocinhas do Mr. Pretzel oferecem. Quando o que está sendo oferecido é qualquer coisa cultural, então, eu entro até em fila se for necessário.
Foi assim que eu consegui assistir ao Rent duas vezes e meia. Um amigo meu tinha um amigo que conhecia um dos atores da peça. Um dia, depois de comentar sobre o musical, esse amigo do amigo disse que iria de novo assisti-lo na semana seguinte e perguntou se eu não queria ir também. Eu, obviamente, aceitei antes mesmo dele terminar a frase. Fui e gostei muito. Um mês depois, perguntei se não tinha como arranjar mais um par de convites pra eu ir assitir com meu irmão. Tinha, e fomos nós dois lá assistir de novo. No último dia da peça me chamaram de novo pra ir lá assistir e depois ir pra festa de encerramento do Rent. Saí de Campinas no domingo à noite pra ir assiti-lo, cheguei no meio do primeiro ato, só pude entrar um pouco antes do segundo, mas valeu a pena.
Nessas de contato com a amiga do amigo eu consegui ir de graça num dos shows mais trash da minha vida, do grupo Alphaville. Você provavelmente nem sabe quem são eles: são um grupo que fez sucesso nos anos 80 cantando "Forever Young" e "Big in Japan". Eu não sabia disso, nunca tinha os visto mais gordos, mas o show era de graça, ia um pessoal legal, fui. Quando chegamos lá, tinha quase cem pessoas na platéia, ou seja, o show estava muito vazio. E, pior, sessenta delas estava com uma cara de quem obviamente só estava lá porque também tinha conseguido um ingresso grátis. Fiquei sabendo uma semana depois que essa amiga do amigo, que era quem tinha arranjado de trazer o grupinho pra cá, quase foi demitida por causa do fracasso retumbante do evento.
Semana passada a Júlia mandou um e-mail pro pessoal da lista do TioMega que a tia dela tinha convites para o camarote do show do A-ha no Credicard Hall, e perguntou quem gostaria de ir. Eu aceitei imediatamente, ninguém mais quis, acabei indo. No dia do show saí do trabalho, peguei um busum até a casa da Júlia, e de lá fomos eu, ela, o irmão dela e um amigo do irmão fazer essa jornada de volta aos anos 80 grátis.
As coisas bizarras já começaram no caminho. O show estava impressionantemente lotado – as ruas em torno do Credicard Hall estavam lotadas de carros que procuravam um estacionamento. Várias pessoas mais afoitas deixavam seus carros na calçada e pagavam preços extorsivos para os flanelinhas. Vários outros flanelinhas anunciavam que compravam ingressos que estivessem sobrando por mixaria e os venderiam por preços mais extorsivos ainda. Todo um comércio de refrigerante, cerveja, cachorro-quente e batidas havia se instalado por perto, tentando ganhar uma graninha do monte de gente que se apressava para não chegar atrasado no espetáculo.
A gente entrou com o carro no Credicard Hall, descobriu que não tinha vaga nenhuma, saiu pelo outro lado e deixou no estacionamento mais próximo. Eram vinte pras nove, e o show oficialmente começaria às oito e meia; andamos o mais rápido que o fluxo de gente que havia redescoberto o A-ha permitia. Quando chegamos lá, comecei a sentir o gosto do poder: ignoramos as filas que ainda existiam nas entradas gerais e fomos para a entrada lateral dos camarotes. Algo totalmente inédito pra mim: nas outras vezes que tinha ido pro Credicard Hall, nunca tinha tido cacife pra ir na parte rica da casa, tendo sempre ficado na senzala. Eu recomendo altamente: o pessoal só falta te carregar nas costas. Uma mocinha nos mandava até a outra que nos mandava até a próxima que nos levava até o camarote. Eu nunca pensei que subir uma escada rolante fosse me fazer sentir com tanto status.
O show foi fraquinho, mas era de graça mesmo, então quem se importa? O A-ha tem uma empatia muito baixa com o público, todas as músicas conhecidas deles têm mais de dez anos, e o cantor deve ter colocado tanto botox que perdeu quase todas as expressões faciais. Eles arranjaram uma backing-vocal que tentava animar tudo, ficava lá batendo num pandeirinho, pulando de um lado pro outro, dançando animadamente músicas que não eram animadas e fazendo sinais pro público. Que provavelmente se perguntava que que ela tinha tomado antes de chegar lá.
Mas o mais bizarro foi que, no camarote logo em frente ao nosso, tinha dois homens barbudões, com mais de trinta anos, junto de suas respectivas namoradas. Para o espanto meu e da Júlia, eles eram os dois fãs mais animados da casa toda: cantaram junto todas as músicas, batiam palmas, daí não se controlavam e se levantavam para dançar com todo o molejo de um engenheiro naval. Nós ficamos passados.
E, pior de tudo, o A-ha não cantou a música do Laka. Nós ficamos uma hora e meia inteirinha esperando por essa música, e neca. O show acabou, eles voltaram pro bis, deram tchauzinho de novo, e nada e "Crying in the Rain". Decepcionante.
Na hora de sair eu pude sentir o gostinho de ser rico de novo. Enquanto o pessoal da geral entrava na manada da saída, nós elegantemente saíamos do camarote na escada rolante. Gente fina é outra coisa. De graça, então…