Os doze trabalhos de Ana Paula

Eu, o Danilo e o Anselmo reclamamos da nossa infância sofrida, de como tínhamos que varrer calçada, podar as trepadeiras do muro, lavar louça etc. e tal, mas na verdade temos que considerar que nossa meninice foi fichinha perto do que a Ana Paula enfrenta. E olha que ela faz o serviço muito bem, ela mantém um bom humor que eu não sei se seria capaz de ter.

Já faz um mês mais ou menos que ela começou a tomar injeções diárias de hormônio de crescimento, porque está meio pra trás nos padrões de desenvolvimento. Ela ganha um real por injeção, o que, mais os dentes que estão caindo, a fazem a menina mais rica lá de casa (inda mais porque ela não gasta mesmo). Mais de uma vez já me vi na situação vergonhosa de emprestar dinheiro da Ana Paula pra pegar o ônibus de volta pra Campinas. Ela devia cobrar juros, mas acho que só se começa a pensar nisso quando se chega aos doze anos.

Domingo ela voltou de Araraquara, onde tinha ido operar a boca, com o primo Luquinhas. Os caninos permanentes da mina estavam nascendo no lugar errado, dissolvendo as raízes de alguns incisivos, então ela foi lá arrancar os de leite e passar um fio que conduza os dentes rebeldes para o lugar certo. Mãinha ortodontista já aproveitou e extraiu os molares que ela precisaria arrancar mais pra frente pra completar a obra de dentes perfeitos dos filhotes. A menina chegou toda inchada, bochechuda e com o beiço de cima enorme. E ainda estava levando tudo até numa boa, não sorria mas também não chorava, falava que estava tudo legal. Eu fiquei meio triste dever aquilo, mas também não conseguia deixar de achar que ela estava muito engraçada. Porque era temporário; se fosse permanente, eu ia ficar muito triste mesmo.

Pois bem, quatro da matina de domingo pra segunda, eu acordo com um barulho de enxurrada. Levanto pra saber o que está havendo, encontro Ana Paula, mãe e Lucas de pé, e um monte de água escorrendo do lustre do quarto da Ana Paula, bem em cima da cama dela. Estava ela em seu soninho desinchador, quando começa a cair água em cima dela. Corre a menina pro quarto de mãinha, "Mãe, tá chovendo dentro do meu quarto!". Mãinha acorda pai, vão lá ver do que se trata, ponto em que o Lucas também já tá de pé, vêem que a mina não está alucinando com resquícios de anestesia e está tendo o dilúvio no quarto infantil mesmo. Pai sobe no forro e descobre que estorou um cano da caixa d’água. Podia ser no meu quarto, no do Danilo, no deles, mas nãããão, tinha que ser em cima da mina da boca inchada.

E como urucubaca pouca é bobagem… Hoje mãinha e Anselmo foram levar a Aninha e o Lucas pro Hopi Hari. Se divertem bastante o dia inteiro, voltam pra Campinas, e descobrem que não têm a chave de casa. Contactam o Danilo, que estava comigo na casa do Spock, combinam de ir pegar a chave no meio do caminho, e fecham a porta do carro – em cima da mão de quem, de quem, de quem? Da Ana Paula! Tiveram que ir lá pegar a chave, e daí correr pro hospital tirar um raio-x da mão da mina pra certificar que não tinha quebrado nada (e não quebrou mesmo, felizmente). Agora, além da boca inchada, tem o dedo inchado.

E ela ainda levando tudo numa boa, no maior bom humor. Essa mina vai pro céu, sério.