Cruzando o piquete

A maior questão desta semana foi: "Vai ter paralização na quinta?". E o pior é que ninguém sabia responder. Os alunos mais engajados falavam "claro, vai ter greve geral!". Já os funcionários diziam que não sabiam de nada. E eu, que sou aluno e funcionário, fiquei aqui esperando algum pronunciamento para saber se eu poderia ficar em casa como todos os outros alunos eu teria que vir trabalhar como todos os outros funcionários.

A quinta chegou, e, como não houve pronunciamento, resolvi pegar o busão pra USP e conferir se deveria trabalhar ou não. Estava um dia chuvoso, eu queria mais que tudo ficar em casa assistindo Sessão da Tarde, mas o dever falou mais alto. Lá fui eu sacolejando pro outro lado da marginal.

De greve geral, nem sinal. Os ônibus funcionavam normalmente, e a cidade estava como se nada estivesse acontecendo. Só quando o coletivo começou a se aproximar da USP que notei algo diferente: uma fileira de trólebus estacionados num lado, e os ônibus a diesel parados fazendo ponto final na outra pista.

Meus colegas engajados haviam atravessado um trio elétrico no portão 1 da USP, impedindo que os busuns passassem. Afinal, para quê fazer uma verdadeira campanha de conscientização e convencer os alunos a realmente participarem, se você pode simplesmente impedir a entrada deles todos numa greve compulsória?

Desci na entrada da USP e tomei coragem pra caminhar sob a chuva. Passei pelos manifestantes sem maiores problemas. Conforme me afastava, ouvia uma mulherzinha dos grevistas fazer discurso pra eles mesmos. Acho impressionante como conseguem sempre escalar alguém que usa a mesma entonação de voz e pausas esdrúxulas do povinho que pede dinheiro no ônibus: "NÓS ESTAMOS AQUIII… RE-UNIIIDOS… EM PRO-TÉÉSTO CONTRA… A MU-DAAANÇA… DAS LEIS DE TRA-BAAA-LHO…".

E o mais interessante foi outro tiozinho que foi informar sobre como estava o movimento: "Setenta por cento da USP está parada! Tem algumas aulas por aí, mas isso não conta! Parece que na fábrica da Volks os trabalhadores também pararam!". Acho que não captaram que greve geral ou é geral ou não é. De que serve parar 70% da USP? O governo já quer se livrar da Universidade mesmo, não tá nem aí se 70% ou 95% da USP parar.

Eu sou da opinião de que as coisas só mudariam mesmo se sempre que alguém quisesse fazer uma greve, os lixeiros aderissem em solidariedade. Daí sim, as decisões iam ser tomadas com uma rapidez nunca vista. Se não for assim, acontece que nem foi comigo: caminhei até minha sala, assinei o ponto, e fiquei a tarde inteira sozinho, já que os alunos tinham tirado o dia de férias. E ainda voltei de ônibus pra casa, depois de ter tido remo, pois o piquete no portão 1 saiu no meio da tarde pra protestar em outro lugar. E ninguém aprendeu nada de novo.