Eu faço revistas a anos. Já encarei os piores fechamentos. Já criei um projeto gráfico de revista e toquei a arte dela quase sozinho. Não há nada que ainda me assuste, há?
Rá.
Sexta à noite. Olívia, minha ex-estagiária, me encaminha um e-mail dizendo que tem uma moça precisando de designer pra fazer um livro de caligrafia. Ora ora, frila é comigo mesmo, pensei. E, pra quem faz caber milhares e milhares de toques na MH todo mês, o que há de ser um livro de caligrafia, não é mesmo? Agradeci à Olívia pela dica e, já pensando em como juntaria uma graninha pras minhas férias, corri atrás do contato que ela me passou. O contato passou um contato que passou um contato, até eu conseguir falar com a garota que havia lançado o pedido de ajuda na web.
Falei com ela pelo telefone na segunda de manhã, marquei de ir na casa dela pegar o serviço à noite, e deixei a faxineira fazendo limpeza no meu apê. Dez horas depois, estava eu no Butantã. A moça tinha ido separar uma briga de dois cães seus que disputavam uma cadela no cio (também dela), levou uma mordida no pulso e agora não tinha mais como fazer esse serviço. Combinamos os quandos e quantos, e eu fui pra Shambhala todo feliz que ia ganhar um tutu.
Mas oh, o destino é cheio de reviravoltas, e, quando cheguei em casa, encontrei o apartamento cheirando a limpeza e meu laptop Macedo Afonso não mais funcionando. Melhor, funcionar ele funcionava, mas o monitor não acendia nem conversava mais com ele. Terrível. Enquanto tentava todas as mandingas para ver se ele voltava a exibir algo, já previa, rangendo os dentes, o que seriam minhas próximas semanas.
Quando vi que não tinha jeito mesmo, preparei um plano de ação. Conforme prometido, na terça entreguei pra menina as primeiras dez páginas, para ela ver que eu sabia o que estava fazendo. Daí no dia seguinte tirei da frente os folders que eu devia para a Dharma|Arte. A próxima noite foi dedicada a aprontar o site do Tablado de Arruar no WordPress. Sexta-feira descansei, e sábado, depois de ir na academia, fui todo pimpão cuidar de fazer o livro na redação.
No fim daquela noite eu já havia passado a estar pimpinho. No domingo, estava desolado. Horas e horas de trabalho… e dos cinco capítulos, eu havia conseguido terminar dois. Como bem havia avisado minha contratante, a bucha era bem maior do que eu pensava. Para começar, como em todos os livros didáticos, você tem que diagramar os exercícios e deixar junto-porém-separado as respostas do livro do professor, o que já dá um trampo enorme. Para piorar, esse é um livro de caligrafia; o que significava que todos os espaços de respostas e/ou exemplos para os alunos são dados em pautas caligráficas, e as frases são escritas em fontes manuscritas. Não uma qualquer, uma fonte que tem variações o suficiente para realmente se fazer passar por uma escrita cursiva infantil. Ou seja, ela tem um e minúsculo normal e um e diferente para casos como be, ou ve, um l padrão e um l para ir depois de o, por aí vai. Cada. Frase. Tinha. Que. Ser. Ajustada. Letra. Por. Letra.
O prazo era segunda-feira. Domingo de madrugada mandei os PDFs dos dois primeiros capítulos e pedi, morrendo de vergonha, que ela me desse mais três dias de prazo. Mas, claro, minha vida sendo o que é, só consegui pegar na caligrafia de novo na sexta à noite. Fiquei na redação já planejando varar a noite, mas terminar tudo naquela noitada mesmo, porque a festa junina da famiglia era no dia seguinte, em Araraquara.
Mais uma vez, essa foi a mais iludida das ilusões. Quatro da matina, e eu não tinha conseguido terminar o terceiro capítulo. Já estava pegando raiva dos exercícios em tabela, que no projeto gráfico do livro eram particularmente difíceis de se fazer, já que juntavam pautas, e tabelas, e bordas com cantos arredondados. A essa altura do campeonato, eu já queria que Simbá, o marujo, fosse comido pela baleia gigante, e desejava que as crianças realmente simplificassem tudo e escrevessem Brasilha, familha e Amélha ao invés de ficarem se preocupando com as distinções entre lia e lha. Voltei para casa derrotado e já sabendo que não tinha como ir pra Araraquara City.
E assim, automaticamente, meu fim de semana foi condenado à caligrafia. Revivi todos meus traumas de infância como um menino de letra feia que não conseguia decorar lemas como Quando, numa palavra, temos duas letras juntas que representam apenas um som, ocorre o que chamamos dígrafo. Certa hora, ao me deparar com um exercício que dizia “Leia a parlenda e copie-a”, realmente fiquei com pena de toda a pivetada que faria aquilo tudo sem realmente pensar nem levar para a vida que raios quer dizer parlenda. Só consegui concluir esse instrumento de tortura infantil no domingo, às nove e meia da noite. Entreguei os PDFs e fui para casa.
Acabou? Não. Em uma semana chegam as revisões e as ilustrações. Minha letra, porém, continuará igual.
Comentário totalmente não relacionado ao post, mas tinha que compartilhar contigo: fiquei com invejinha e mudei pro WordPress também.