O irmão à casa volta

A frase que minha mãe mais disse nas últimas duas semanas foi "Eu estou que nem tartaruga com o relógio nas costas, não vejo a hora!". A razão disso era, claro, a volta do Danilo, meu irmão gêmeo que passou o último ano nos EUA. Eu, sinceramente, também já não aguentava mais. Eu cheguei a sonhar, um dia antes, que ele já tinha chegado e minha mãe estava escondendo ele. Procê ver como são as saudades do tato.

Ele chegava no aeroporto de Guarulhos às dez e meia, então nós todos nos programamos para sair de casa às nove, o que surpreendentemente aconteceu, apesar da ressaca do Anselmo. Meu pai tinha alugado uma van, já que a comissão de boas-vindas era grande: nós cinco (pai, mãe e irmãos), mais dois primos, mais Kika e Anand, mais tio e tia. E a Luana, A Cã Que Pensa Que É Gente.

Chegamos no aeroporto 10:25h, ignoramos as placas proibindo cachorros e entramos com Luana e tudo. Esperamos num portão de desembarque, vazio, e pouco depois minha mãe descobriu que era no outro portão. Lá fomos nós atravessar o aeroporto todo.

Este portão estava cheio. Ficamos naquela espera sem fim, olhando todo carrinho de malas com a esperança de que atrás estaria o Danilo. Começaram a sair japoneses e mais japoneses, cada um carregando dois contêiners de plástico, e nada de Danilo. Tinha um senhor na minha frente que segurava uma plaquinha onde se lia "Tony O’Connor". Ele tacava a placa na frente de cada não japonês que passava, insistentemente, talvez na esperança de que o indivíduo adotaria o nome de Tony O’Connor e se deixaria levar pelo sujeito. Mais e mais gente saía, e nada de manobroda.

Mas eventualmente, é claro, Danilo deu o ar de sua graça, e foi recebido com o escândalo de praxe da minha família: minha mãe invadiu o portão pra abraçar ele, o Anselmo tacou a Lulu em cima do recém-chegado, eu fui correndo, abracei e já peguei sua megabagagem: uma caixa enorme, uma mala maior ainda na qual é possível esconder um defunto, e o famoso violão azul.

Assunto é o que não faltou na viagem de volta pra Camps City. Ele voltou de cavanhaque, mais fortinho, compondo músicas e tocando violão mó bem. Assim que manobroda desembarcou lá em casa, começou o tradicional churrasco, e mais parentes começaram a chegar. O Danilo distribuiu os presentes e encomendas e, à prova de todo e qualquer jet-lag, fez sala pra todo mundo que chegava até as dez da noite. Entre um grupo de visitas e outro, a gente tentava acomodá-lo em casa, já que estávamos acostumados a dispor dos metros quadrados e armários que ele não usava. Uma pessoa a mais na casa faz uma diferença incrível, meu quarto ainda estava de ponta-cabeça quando eu voltei pra Sampa na segunda de manhã. Mas melhor que ficar com manobroda longe!