Para ver a menina

Fui assistir ao show da Marisa Monte ontem. De graça, no Ibirapuera. Sentadinho e confortável. Tinha até um metro quadrado em volta de mim! Que diferente da outra vez.

A primeira vez que eu fui num show da Marisa Monte foi quando o Pão de Açúcar começou a fazer estes shows de graça no Ibirapuera. Foi um dos primeiros, se não o primeiro, com a Marisa Monte e o Carlinhos Brown. Eu e o Louis, ainda vestibulandos, resolvemos aproveitar que o Louis tinha acabado de tirar carteira de motorista, catar o carro do pai dele e ir pra Sampa assistir ao show. Oportunidade barata de fazer um programa legal. Há.

Chegamos lá uns quinze minutos antes do show. Todas as avenidas em volta do Ibirapuera estavam intransitáveis. Flanelinhas por todos os lados. Todas as vagas de verdade já ocupadas. Como já tinha um monte de gente estacionando nos canteiros, cedemos à pressão de um flanelinha que estava "organizando" um estacionamento num dos canteiros maiores e estacionamos lá. E tivemos que deixar dez paus adiantados.

Seguimos o formigueiro até a Praça da Paz, no Ibirapuera, avançamos o quanto conseguimos no meio da multidão, e assistimos ao show morrendo de calor, apinhados no meio de milhares de pessoas. O show foi bom, o Carlinhos Brown levantava o povo, a Marisa acalmava com uma musiquinha. Saímos dali umas três horas depois de termos chegado. Chegando no canteiro, encontramos o nosso carro e os de todos os outros otários que tinham parado lá e pagado dez paus adiantados devidamente multados por estacionamento em local proibido.

Desta vez, todos os jornais noticiaram um evento ecumênico pró-paz que aconteceu de manhã, com 8 mil pessoas, e esqueceram de falar das 200 mil que apareceram à tarde para assistir ao show.

Fomos eu, Pri, Dani e Léo. Sim, os flanelinhas continuavam lá. Um até se jogou na frente do carro da Pri, agarrou a janela, mas nós o ignoramos e paramos num pseudo-estacionamento com um segurança de crachá, onde se pagava cinco reais, na volta. No caminho até a Praça da Paz, o Léo e a Pri acionaram seus contatos, e eventualmente conseguiram fazer nós quatro entrarmos na área VIP do show. Recebemos os crachazinhos, ignoramos a comida grátis que estavam oferecendo, e confortavelmente sentamos numas cadeiras de plástico próximas ao palco. Enquanto isso, cinco metros atrás da gente, 200 mil pessoas se esmagavam para ficar mais perto do show. Cada vez que eu pensava nisso, eu esticava as pernas.

A Marisa estava passando o som quando nós chegamos. Meia hora depois dela ter saído do palco, os Meninos do Morumbi foram fazer uma apresentação de percussão e dança. Como acontece com qualquer um que faz uma apresentação abrindo um show, seu principal problema era que ninguém lá queria vê-los, queriam mais que acabassem logo para que o show de verdade começasse. O que só aconteceu às quinze para as seis, pontualmente quarenta e cinco minutos atrasado.

O show foi muito bom, na minha opinião. Mas eu sou um daqueles que sinceramente gosta muito do último disco da Marisa, Memórias, crônicas e declarações de amor. A maioria das músicas do show veio daí. Ela começou com Amor, I love you, emendou com Eu te amo, eu te amo, eu te amo, do Roberto Carlos e continuou com Arrepio. E o povo da platéia gritando "Beeem que se quiiiiiiss!!!".

Sem precisar me preocupar com a minha integridade física devido à minha posição privilegiada, eu conseguia admirar a cenografia do show e todo o trabalho de iluminação e projeções durante o show (detalhe irrelevante para quem se esforça para conseguir ver ou o telão ou o pontinho cantando ao longe). E ficava pensando como é interessante que em shows brasileiros sempre tem um baterista e um percussionista, quando não mais de um. Isso não acontece nos shows internacionais. No caso do show da Marisa, havia três. Já no meio do show ela cantou algumas músicas mais populares, Magamalabares e Beija eu. E o povo da platéia bradava: "Beeem que se quiiiiiiss!!".

Impávida em sua presença de palco, dona Monte cantou (conforme explicou depois) uma música de 1908 com letra de 1918, cantada originalmente por Vicente Celestino. A essa se seguiu uma das músicas religiosas do Roberto Carlos, "pela paz", que não era nem Jesus Cristo nem Ave Maria; ela não disse o nome e meu conhecimento do Rei não chega a tanto. Por fim, Não vá embora. E a platéia se esgoelando: "BEEEM QUE SE QUIIIISS!!".

Depois do suspense besta que sempre tem em todo show, ela voltou para o bis, repetiu Eu te amo… do RC, a música das sereias de seu primeiro disco, e Não vá embora. E saiu. A platéia arrancava os cabelos: "BEEEEEEEMM QUEEEE SEEEE QUIIIIIISSS!!!".

Volta a tia Marisa de novo, com sua câmera digital, pede permissão para tirar fotos da platéia (como se alguém fosse impedir), e, finalmente, a capella, canta Bem que se quis com a platéia. Encerrou muito bem o show.

Não teve como escapar do povão na hora de ir embora. Saímos os quatro cantando músicas da Marisa, como todo mundo. E ainda não fomos multados por estacionamento indevido. Ê beleza.