Hoje o Teco morreu, tadinho.
Eu nunca tive bichinho de estimação. Minha mãe dizia que não gostava de bicho. E olha que teve vezes que eu e o Danilo pedimos. Tá certo que a gente também passou um tempão morando em apartamento.
Na verdade, quando a gente morou no apartamento a gente teve o Nicolau. O Nicolau foi um pintinho que a gente ganhou numa festa de aniversário (que tipo de pai espírito de porco sai dando pintinhos de lembrança de aniversário, só deus sabe) e trouxe pra casa, numa noite de inverno. Todos muito felizes, fomos dormir e deixamos o Nicolau numa caixa no lavabo. Uma hora depois ele começou a piar. Eu virei pro lado e dormi. Minha mãe levantou pra esquentar o Nicolau, que estava piando de frio. Ficou ela nessa situação ridícula de ficar esquentando o pintinho no lavabo. No dia seguinte eu acordei e a minha mãe disse que tinha mandado o Nicolau pra uma granja, encontrar a mãe dele. Só anos depois que eu descobri que o Nicolau tinha ido encontrar a mãe dele na granja do céu, que tinha morrido de frio apesar dos esforços da minha mãe, e que estava no saco de lixo o tempo todo.
Também teve uns peixinhos que a gente ganhou numa pizzaria. Pusemos eles dentro de um galão de pinga cheio d’água, no qual colocamos umas plantinhas dentro, e colocamos o galão em cima da geladeira. Só nos lembramos dos coitados meses depois. Qual não foi a nossa surpresa ao descobrir que naquela água verde ainda restava uns dois peixes vivos?
Depois que a gente se mudou pra casa e passou a ter quintal, um dia uma amiga da minha mãe deu pro Anselmo uma cadelinha de aniversário, misto de collie com vira-lata. Já que a desgraça já estava feita, minha mãe não teve como aplicar o método anticanino que vinha funcionando tão bem comigo e com o Danilo. A cã se chamou Biba, e durou até quando a minha mãe engravidou da Ana Paula, e resolveu usar a explicação de que bebê não podia conviver com pelo de cachorro pra se livrar dela.
Anos depois, a gente descolou o Toquinho. O Toquinho é o fruto de incesto (sua mãe era sua avó, já que fez cachorrinhos com o próprio filho) que o Louis nos deu. Vivia sozinho no quintal, tadinho, e os parafusos soltos causados pela sua paternidade escandalosa não ajudava muito. Ele ficava pulando na porta de vidro da copa cada vez que nos via passar, querendo ficar com a gente. E como latia, coitado. Tanto que, quando o Tio Maluquinho veio passar seus meses dormindo aqui em casa, ele se incomodou com o cão, e, quando ia almoçar, passou a deixá-lo solto na calçada na frente de casa. "Ele não foge mesmo", dizia o Tio Maluquinho. Até o dia em que ele foi buscar o Toquinho na calçada, e Toquinho não tem. Não sabemos até hoje exatamente o que aconteceu.
Como a minha mãe foi ficando boba com o passar dos filhos, ela mesma resolveu suprir a Ana Paula de bichos de estimação. Primeiro veio nossa tartaruga, a Olívia. Depois mãinha resolveu dar uma cã pra Ana Paula no aniversário dela. A gente foi até a puta que o pariu buscá-la (entrada 55 da Superficie), uma filhote de beagle legítima que foi batizada Lady pela Ana Paula. Ela cresceu, cresceu, cresceu. Quando a gente reformou a casa pela enésima vez, ficamos sem quintal, e a mandamos para a casa da Vó Maria, onde ela está até hoje.
Para compensar a perda, minha mãe arranjou uma poodle toy preta "que nem a do doutor Interlandi", a Milli. Durou exatamente três semanas. Ela foi ficando cada vez mais quieta, até que bateu as quatro botas, vítima de alguma doença que ela pegou no canil onde nasceu mesmo. Minha mãe foi lá reclamar, e recebeu uma outra de indenização, de pêlo creme, que hoje atende pelo nome de Luana, ou Lulu.
Nossa última aquisição foi o Teco, um passarinho. Ele chegou com sua gaiola aqui em casa faz umas três semanas. Ficava lá na sua vida besta de pular de um poleirinho para outro.
Hoje eu cheguei, tirei a gaiola dele de cima da máquina de lavar roupa, coloquei-a no chão e comecei a lavar minhas roupas. A Lulu chegou, começou a cheirar a gaiola, o pássaro ficou todo aflito, batendo as asas, morrendo de medo, e eu pensando "Que bobo, está com medo da Lulu, tão boba ela!". E fui cuidar da vida.
À noite, estávamos eu, mãinha, pai e Anselmo jogando baralho, quando a Ana Paula chega e pergunta "Cadê o Teco?". "Lá na área de serviço, Ana Paula!", dizemos. Ela vai, volta e diz que não achou. A gente manda ela procurar de novo, você viu a gaiola dele no chão? Ela vai e volta com uma peninha dele na mão, dizendo que não encontrou Teco. O Anselmo levanta, vai até lá, encontra a gaiola vazia, um monte de peninhas espalhadas, e faz o prognóstico inevitável:
"A Lulu comeu o Teco!"
Olhamos debaixo da pia da cozinha, e encontramos uns pedaços de Teco. Quem poderia pensar que por trás daqueles vinte centímetros de comprimento e dos lacinhos cor-de-rosa se escondia uma assassina.