Natachão

Adeus, legião de sedentários!! Pois agora quem escreve se dedica a atividades físicas outras que carregar as sacolas do supermercado três quarteirões até em casa e lavar louça. Resolvido a voltar ao mundo das pessoas saudáveis, eis que agora faço natação.

Provavelmente todas as crianças de classe média já fizeram natação em algum ponto da vida. Tavlez isso se fato de que as mães superzelosas morrem de medo que os filhos morram afogados, então acham bom que aprendam a nadar logo. Afinal, eles não podem ficar depositando mijo na piscininha infantil a vida inteira.

Como não podia deixar de ser, é claro que Mãinha tratou de seguir a regra acima e colocou eu e meu irmão na natação. E depois em atividades esportivas variadas. Sofremos um ano de escolinha de futebol ("Terminem um ano", ela dizia, "vocês não podem se acostumar a largar as coisas no meio!".), que só me valeu ganhar uma medalha de prata num campeonato interno – sem nenhum mérito da minha parte, que só gostava de ficar na defesa, torcendo para meu time atacar bastante de forma que a bola não viesse muito para o meu lado. Ainda fiz caratê (que eu larguei na faixa verde, quando começou a demorar mais para subir de faixa, e eu comecei a perceber que não gostava de lutar, então o que estava fazendo ali?) e, embalado na medalha de ouro, vôlei, que não deu muito certo também, pois todo mundo era melhor que eu.

Depois disso, só voltei a fazer esportes quando estava nos EUA. Já estava lá havia alguns meses, e estava sofrendo com o dilema: em high school, as pessoas só fazem amigos nos times esportivos, mas eu não gostava de esportes coletivos (vôlei, o mais aceitável, só tinha feminino). Foi quando eu vi o anúncio do time de natação, e resolvi que era uma alternativa boa. A Mom topou me levar aos treinos diários, então entrei nessa.

Os estadunidenses, bizarramente, consideram natação um esporte de inverno, pois lá todas as piscinas são cobertas e aquecidas. No time havia umas vinte meninas e só eu e outro cara de meninos, pois os american boys preferem perder o dedo mindinho a colocar uma sunga.

Eu não era o mais dedicado dos nadadores, enrolava bastante, tentava dar o melhor de mim nas competições mas sabia que esse melhor não era tanto assim. Mesmo assim, era divertido. Na última competição, o técnico me pediu pra raspar as pernas para que eu ganhasse um segundo no meu tempo. Convicto na minha crença de que meus pêlos demoraram muito para crescer e que, até eles se jogarem das janelas do meu corpo eu que não vou empurrá-los, disse que não. Até porque meses de pêlos nascendo de novo não valiam um segundo.

De volta ao Brasil, vestibulares, faculdades e trabalho me impediam de criar vergonha na cara e fazer exercício. Eu até fiz um pouco de musculação, mas o ambiente das pseudo-academias que fiz (no clube e na USP) não me estimularam. Não só musculação é um porre de se fazer, como existe uma competição (às vezes) silenciosa entre todos na sala, para ver quem levanta mais peso mais vezes e quem criou mais bíceps. Assim, fiquei contente em deixar a Ana Paula fazer balé, natação, equitação e educação física, assim se exercitando por mim e pelo resto da família.

Agora, começo de semestre, entre trabalhos (Esse eufemismo não é ótimo para miseravelmente desempregado? Aprendi hoje.), resolvi entrar na natação da USP. Fui lá, paguei ensandecidos cinco reais pelo semestre todo, e peguei uma das vagas remanescentes para natação das seis às sete da tarde, terças e quintas. Cheguei lá, quase de noite, pronto para encarar a piscina, quando descobri que só a abririam na primavera, e que até lá nós faríamos exercícios físicos na trilha do CEPE. Ou seja, natachão. O que não é tão ruim assim, eu estava com medo de encher a piscina com ferrugem assim que pulasse nela, agora não deve mais acontecer.

É impressionante como a gente já começa a se sentir mais saudável só porque correu dois dias e fez uns abdominais.

Ainda tenho que comprar os apetrechos. Fui na lojinha do CEPE comprar óculos de natação, e a mulherzinha do balcão me falou com a maior naturalidade de que só tinha esse e esse modelo, por 35 e 50 reais. Eu quase perguntei para ela se eles deixavam a gente com olhos azuis, iam pingando colírio conforme a gente nadava ou algo assim, porque por 50 reais tem lugares que te fazem um óculos de verdade.