Obsoletência

No Natal de 1991 minha mãe ganhou de um tio meu, num amigo secreto, um CD com os maiores sucessos do Caetano Veloso. Algo que não seria nada tão extraordinário assim, se minha mãe tivesse um CD player, o que ela não tinha. Minha mãe levou o CD pra casa, e ele ficou lá em cima do móvel da sala por meses e meses. Eu e os meus irmãos abríamos a caixinha, olhávamos o disquinho, achávamos aquele arco-íris que formava no disco a coisa mais linda do mundo e fechávamos a caixa.

O pobre ficou lá como decoração da sala bastante tempo, até que, chegando o dia das mães, mãinha resolveu que não queria que meu pai desse um CD player pra ela de presente, já que não seria um presente pra ela, e sim pra família toda, que safado, queria dar pra ela um presente que ele queria e ia usar. Então ela foi na loja e comprou ela mesma o CD player, e meu pai que pensasse em outro presente.

É interessante o problema que surge quando esse tipo de salto tecnológico acontece na sua casa. Você acha tão lindo poder pular pra faixa que quer, não ter que virar o disco, programar as músicas na ordem que você quer ouvir etc. etc. que não quer mais nem ver, quanto mais ouvir, aqueles discões de vinil. O problema é que, enquanto você tinha trezentos discos de vinil, você só tem um único mísero CDzinho – a variedade disponível diminui deveras. Eu lembro que ficava ouvindo o disco do Caetano Veloso milhões de vezes, lendo sempre os mesmos gibis, tanto que até hoje se eu ouço uma das músicas desse disco eu lembro da historinha da revista, e quando leio as revistinhas em questão meio que ouço velosidades.

Tenho que lembrar que naquela época CD não era carne de vaca que nem hoje, CD era uma coisa cara, o conceito de um jeito de você gravar CD em casa era uma coisa tão distante e futura que ninguém levava muito a sério. A gente demorou bastante pra recuperar uma variedade mínima de opções.

Pois que, anos depois, o mesmo tio tira minha mãe de novo num amigo secreto, e dá pra ela um DVD (disco) com o show do Caetano Veloso, pra incentivá-la a comprar um DVD (aparelho). Dessa vez o pobre disquinho não ficou decorando a sala, mas ficou arquivado entre as centenas de fitas de vídeo que tem aqui em casa. Não tinha ninguém nem pra ficar olhando a buniteza das cores do disquinho, porque todo mundo já sabia como era, e a única aqui que tinha idade pra fazer essas basbaquices, que era a Ana Paula, já nasceu com um CD no dedo, está careca de saber como é e tem a sua própria coleção de CDs.

O que não diminui em nada os efeitos deslumbrados de quando meu pai chegou ontem com um aparelho de DVD debaixo do braço, comprado aparentemente sem motivo específico. Em menos de dez minutos o Anselmo já tinha ligado tudo na TV, desenterrou o show do Caetano, e ficamos nós lá de boca aberta, bobos de como a imagem é mais bonita, o som melhor, como você pode escolher a língua da legenda, pular pra faixa que quer e não precisa rebobinar a fita depois.

Dentro de pouco tempo a gente vai precisar jogar fora as quinhentas e tralalá fitas de vídeo daqui de casa, acumuladas em tantas promoções de CARAS e Folha, fitas que gravaram tantos programas de TV, videoclipes e tudo mais. Ninguém mais vai querer vê-las na frente, quanto mais assisti-las.