Sabadão. O sol está dando as caras, apesar de ser quase inverno. Pessoas normais estariam indo pra piscina, pro parque, algo assim, não?
Acontece que pessoas normais não são o tópico de hoje. Quando você vai numa convenção de RPG você pode esperar tudo, menos encontrar pessoas normais.
E eu digo isso me incluindo no enorme grupo dos inormais que lá estavam. Estou numa posição privilegiada de já ter feito tudo aquilo e agora poder destilar todo o veneno que eu quiser.
Fomos eu, o Spock e o Daniel, no sábado de manhã, para os lados do Carandiru, atrás da IX Convenção Internacional de RPG. Sem saber bem onde era, nada anormal no que se refere a São Paulo.
As bizarrices começaram no caminho: de todos os dias do ano em que nós passamos longe da zona norte de São Paulo, nós tínhamos que nos embrenhar naqueles lados justo no dia do Jesus Day, mega-evento religioso do estado de Sumpaulo, se não do Brasil. Nós começamos a notar que o trânsito estava parando, os ônibus aumentando. Umas figuras com uniformes amarelos se tornaram freqüentes nas calçadas. Quando vimos, estávamos cercados pelas excursões de Mogi das Cruzes, São José do Rio Preto e Sorocaba. Ônibus cheios de gente, todos presos dentro dos veículos, disputando um espaço perto das janelas. Um povo que, em vez de gritar "Ah, eu tô maluco!" gritava "Ah! Jesus te ama!".
Fomos conquistando cada centímetro da pista, desejando ardentemente que todos fossem arrebatados por anjos do senhor, deixando assim a pista livre para gente chegar logo na convenção. Na verdade acontecia o contrário: os ônibus avançavam cada vez mais lentamente, e muitos abriam as portas no meio da rua para que os ardorosos e calorentos fiéis descessem, com seus cabelos pintados de verde. Uma hora e meia da mesma avenida depois, conseguimos sair do furdúncio. Aí vimos o prenúncio do que seria a convenção: quatro rapazes de no máximo treze anos, vestido de terno e gravata e carregando pastas de couro, andavam no sol em direção à convenção. "Os errepegistas não mudaram nada", pensei eu.
E não mudaram mesmo. Errepegista é uma raça que, quando se junta, veste preto porque é assim que vampiro se veste. Dê dinheiro e tempo livre pra um e você vê coisas mais bizarras ainda. A primeira figura que me chamou a atenção quando cheguei lá foi uma mina que nos olhava com seus lânguidos olhinhos laranjas, usando um vestido de noiva que havia sido cuidadosamente esborrifado com tinta vermelha para parecer sangue. Depois eu descobri uma outra que também tinha ido de vestido de noiva, mas não teve a presença de espírito de comprar lentes laranjas nem de ensangüentar o vestido, e que provavelmente desejou com todas as forças que a concorrente morresse no instante que se encontraram.
Mas muitas outras coisas estavam lá para deleitarem o público. Trekkers barrigudos uniformizados, jedis vesgos, jedis gordos, nobres cavalheiros com a armadura feita de papel laminado. Um grupinho que comprou vários cobertores xadrezes iguais, resolveu deixar as calças em casa e veio vestindo ”kilts". Japonesinhas vestidas de schoolgirls, inspiradas na Sailormoon ou um outro mangá qualquer. Vampiros que ficavam ajeitando os caninos falsos (que obviamente incomodavam muito, mas não seriam descartados de jeito maneira). Teve um cara que se vestiu de GI Joe, espalhou vários curativos pelo corpo e lambuzou a cara de mercurocromo.
A fauna presente era a mais variada possível (no estreito leque de possibilidades errepegísticas, é claro), e se exibia orgulhosamente na fila para entrar na Devir, na fila para entrar no leilão, na fila para comer, na fila para jogar, na fila para mestrar, na fila para pegar fila…
Em pouco tempo nós começamos a encontrar o povo que eu conheci quando jogava lives, me fantasiava, pintava a cara e essa baixaria toda. Um diálogo meu com o Daniel resume a reação que eu tinha quando revia o povo: "Nossa, ela engordou, não é?", dizia eu. "Pois é, preto emagrece", respondeu o Daniel.
Fiquei lá até umas nove da noite. Nós tínhamos ido para jogar no campeonato de Jyhad, perdemos com orgulho e sem paciência. O Daniel conseguiu trocar milhares de cartas e praticamente completou sua coleção. E eu cheguei à conclusão de que não vale a pena mesmo insistir, esse povo ficou tão freak que eu não consigo mais acompanhar, não tem porque eu enfrentar os súditos de cristo pra passar o dia assim.