Um dia bastante cultural, hoje.
Não começou muito bem, está certo. "Marcio, você não quer ir assistir aos Saltimbancos lá no teatro?", me pergunta a Mariana. Eu, cheio das minhas memórias de infância e da lavagem cerebral chicobuarquiana que minha mãe me fez a vida inteira, aceitei o convite todo animado. Chegando lá, a gente descobre (depois que a peça já começou) que é uma montagem pobre da comunidade pobre do pobre musical do Chico. Os pré-adolescentes no palco sequer tinham acompanhamento, saber cantar então, nem se fala. Cantando daquele jeito, os saltimbancos jamais conseguiriam emprego na cidade mesmo.
A eles se seguiu uma apresentação de um quarteto de cordas. Eu olhei bem pra Mari e fiz ela jurar que, se eles também não soubessem tocar nada, a gente ia sair logo, e não ia ficar sofrendo a apresentação inteira. Felizmente eles eram alunos da Música, e tocavam bem.
Estávamos indo embora quando fomos coagidos por um pessoal na saída a ir assistir a uma peça ao ar livre que ia começar naquele momento. Apesar da minha fome, a Mariana conseguiu me convencer de que meia hora a mais ou a menos não fazia diferença, e lá fomos nós. Qual não foi a minha surpresa quando eu descobri que uma das atrizes dessa peça era a Tatí, uma amiga minha amiga minha que eu não via há uns quatro anos? A peça era do teatro do absurdo, em que um povo lá ficava desmembrando um boneco e tocando pandeiro. A Mari logo perdeu a paciência e foi trabalhar. Eu fiquei até o fim, para cumprimentar a Tatí. Ela demorou uns trinta segundos pra me reconhecer, talvez porque da última vez que ela me viu eu tinha cabelo comprido, barba e aparelho nos dentes.
Às seis da tarde eu fui assistir ao Casa de Cachorro, um documentário que um colega meu dos tempos do COTUCA e que hoje faz Cinema, o Thiago, dirigiu. Um documentário muito bom, sobre o povinho que vende casinha de cachorro na beira da Anhanguera. Bastante tocante, sem ser babaca, mostra uma situação triste mesmo quase sem passar julgamento nenhum.
É engraçado pensar como quase ninguém que fez colégio técnico comigo virou técnico, ou, pra falar a verdade, sequer continuou no ramo. Eu lembro do Chico (nosso professor de Técnicas de Programação), na primeira aula dele, dizendo "Tem TRINTA E CINCO pessoas para cada lugar desses que vocês estão ocupando que gostariam muito de estar aqui, e para os quais o diploma de técnico seria MUITO MAIS ÚTIL!!!". Não adiantou muito querer fazer o povo se sentir responsável e culpado, porque no fim serviu mais pras pessoas descobrirem que não gostavam de programar do que para lhes garantir emprego. Foram para a Medicina, Biologia, Veterinária, Editoração, Cinema… Poucos sequer viraram engenheiros, e acho que só uns dois dos quarenta que entraram continuam programando.
Na verdade foi bom fazer esse tipo de coisa, eu não fazia esses programas culturais gratuitos desde quando eu estava na Unicamp, em que volta e meia você tropeça numa performance. Essa é uma das vantagens de não estar mais trabalhando.
Fica a recomendação, se alguém tiver a oportunidade, vá assistir o Casa de Cachorro, é curtinho e vale a pena.