Buraco

Já não era um dos dias mais propícios. Depois das férias coletivas, estávamos com uma semana e meia até o fechamento e 75% da revista ainda por fazer. Meu chefinho tinha acabado de me dar uma matéria complicadíssima, com dez páginas, para destrinchar. Era sexta-feira, fim da tarde, e nada indicava que sairíamos do serviço tão cedo.

E então acabou a luz.

Acabar a luz na Editora não é algo tão trágico assim. O prédio dispõe de geradores que se ativam automaticamente quando a energia falha, evitando que se ouça um coletivo “EEEEEUUUUU NNNÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOO SALVEEEEEEEEEEEIII” urrado entre lágrimas e cabeçadas na mesa em todos os andares. As luzes se apagam mas os computadores continuam funcionando, o que dá tempo para todo mundo salvar o que estava fazendo e dar umas risadinhas.

Já estávamos procurando umas revistas para ler enquanto aguardávamos que a energia fosse restaurada, quando alguém olhou pela janela e disse “gente, tá desabando o buraco!”.

As obras da estação de metrô nova que vai abrir do lado da Editora têm sido o entretenimento de todos há dois anos, já. Quando eu estava em Londres o pessoal da Recesso já me contava como saíam todos correndo para tirar fotos no meio da Marginal vazia durante as breves interdições na pista que ocorriam todos os dias no mesmo horário. Quando eu voltei ao Brasil e à Editora, já não interditavam mais a pista, mas as detonações subterrâneas para abrir os túneis continuavam, fazendo o prédio todo tremer. Da janela da redação da NI, onde acabei arranjando emprego, volta e meia acompanhávamos os movimentos de um guindaste sobre um buracão gigante que ninguém sabia ao certo para que servia.

E agora o buracão estava engolindo as ruas. Como o povo adora ver uma desgraça, em quinze segundos estavam todos encostados nas amplas janelas que davam pro ex-túnel, que só aumentava. Quando eu consegui chegar, uma rua já tinha ido pro fundo do poço, e, sem saber quando que a erosão ia acabar, acompanhávamos fascinados o buraco chegar mais e mais perto do prédio vizinho.

Entre risinhos meio tensos, acompanhávamos o movimento no dito prédio: um engarrafamento instantâneo na saída de seu estacionamento, dezenas de luzes de freio acesas, se sentindo numa espécie de Torres Gêmeas tupiniquins, esperando sair de lá antes que tudo desabasse. Uma grua ameaçava cair, ia girando de um lado para o outro “para modificar o centro de gravidade”, nos explicaram os colegas ex-engenheiros. O trânsito na Marginal foi interrompido, e o congestionamento em poucos minutos se estendia a perder de vista. Ligamos a TV, mas nada aparecia na BandNews, nem na UOL. Não sabíamos bem o que estava acontecendo, mas o buraco ainda parecia distante, e o fascínio era maior.

Não deu cinco minutos depois de descobrirem o buraco e que portanto seja o que for que estivesse acontecendo ia ser sério, e nossos colegas da redação ao lado juntou os pertences, falou “Ueba! Fim de semana prolongado!” e partiu. Nós, com um dos piores fechamentos da curta história da revista nas mãos, ainda esperamos um pouco, mas, como realmente parecia que a luz não ia voltar e que o buraco podia piorar, juntamos o sangue-frio e fizemos um plano de ação. Enquanto alguns ligavam para amigos e parentes para contar o que estava acontecendo, eu gravei todo o material da minha pepina matéria num CD para trabalhar em casa. A nossa secretária, uma fervorosa crente que tenta nos converter a cada dois dias, enquanto isso entrava num ligeiro pânico bradando “GENTE, VOCÊS SÃO MALUCOS! O PRÉDIO VAI CAIR! QUE QUE CÊS TÃO FAZENDO PARADOS? EU VOU-ME EMBORA!”, e o nosso chefinho respondia “Não vai embora! Você é nossa conexão com o homem lá em cima! O que vamos fazer sem você?? Fica com a gente!”. Eu recolhi todo o meu material, olhei bem para a minha recém-adquirida mesa, juntei tudo o que eu não queria perder pra sempre num eventual desabamento do prédio, e fui pra casa.

Uma vez na rua, o prédio estava sitiado por pessoas que não sabiam se iam ou se ficavam, se acompanhavam o movimento ou iam pro fechamento, se largavam a carteira que ficou lá em cima junto com as chaves de casa ou se subiam dezesseis andares de escada. Eu, de bike, fui mais uma vez atravessando feliz da vida os engarrafamentos que começavam a se formar. Quando cheguei no meu apê, quinze minutos depois, os plantões de notícia já tinham todos sido acionados e divulgavam que algo muito errado tinha acontecido.

Quando voltei ao trabalho na segunda-feira, tudo tinha voltado a uma realidade meio improvável. Os murais de aviso do prédio tinham informes que tentavam tranqüilizar os funcionários, dizendo que o edifício não se apresentava sob risco nenhum. Três ou quatro helicópteros de diferentes canais de TV sobrevoavam a área, e bombeiros, policiais civis e militares e guardas de trânsito interditavam as ruas em volta. As pessoas do outro lado do andar vinham à nossa janela ver a situação do buraco, que começava a ser escorado com concreto. A cada quinze minutos, alguém da nossa redação ou da vizinha levantava para ver os procedimentos, e qualquer comentário era capaz de levar quatro ou cinco curiosos para observar.

Perplexos, descobrimos que a Rede TV!, a Record e a Gazeta estavam preenchendo toda sua programação vespertina com o evento, contando quantas pessoas teriam sido soterradas, entrevistando ex-moradores das ruas ameaçadas, parentes de pessoas desaparecidas, e imagens que pouco diferiam entre si do ex-túnel. Ao ir embora no começo daquela noite, fui tentar pegar uma rua que costumava pegar antes e não pude; os puliças me avisaram gentilmente que tinha otoridade lá e que era pra eu dar a volta. Mais uma vez de volta ao apê doce apê, descobri que nosso governador José Serra tinha ido visitar o túnel, o que me fez ter muita dó do coitado, que, apesar da total inutilidade do gesto, tinha que se enfiar num túnel úmido e precário para mostrar que fazia alguma coisa.

Quatro dias depois, a Sonia Abrão ainda espremia cada gota do assunto durante as intermináveis horas da tarde. Os jornais haviam nos presenteado com as manchetes “Primeiro corpo encontrado”, “Segundo corpo encontrado” e “Terceiro corpo encontrado” em três dias consecutivos. A culpa já havia sido delegada a deus e todo mundo, e declarações do misterioso “Consórcio da Linha 4” surgiam periodicamente. Já sabíamos todos mais do que jamais quiséramos saber sobre o funcionamento do túnel, das obras e do buraco.

Se teve uma coisa boa nisso tudo, porém, foi que voltaram a interromper a marginal por algumas horas por dia. Ruim para os motoristas. Bom para a Renatinha, minha amiga, que aproveitou a interdição para tirar fotos saltitantes na pista deserta, que ela há de mostrar para os netos.