Quando chegou o momento de decidir o que fazer com a minha mudança de Londres para Sampa, que não era pouca, eu fiz uma pesquisa internética de preços e serviços. Pedi orçamentos para várias empresas de frete internacional, e decidi por uma que parecia um presente dos céus: por metade do preço das outras, mandava caixas de papelão para sua casa, buscava a carga, e entregava em poucas semanas no país desejado. Tudo o que eu deveria fazer era buscar meus pertences no porto de Santos.
Rá.
De fato tudo o que eles prometeram se cumpriu. Quando eu desembarquei em Guarulhos minha mudança já estava me aguardando no porto de Santos a semanas. A triste realidade se revelou quando chegou a hora de ir lá buscar tudo. Eu tinha mandado quatro caixas para o nome e endereço do meu pai.
DIA 1: Na esperança de resolver tudo num dia, fomos eu e Pai para:
1. Pagar as taxas extra da companhia de transporte, o que foi a parte mais veloz e simples de todas. Descobrimos que uma das caixas havia sido danificada no transporte, e precisarímos ou agendar uma vistoria para os dias seguintes, ou abrir mão de reclamar quaisquer danos da companhia.
2. No escritório do armazém, Pai assinou o termo que abria mão da vistoria; conseguiu o número do registro de carga.
3. Visita ao escritório da Marinha Mercante para registrar o CPF de Pai e ganhar o privilégio perante a Marinha de receber cargas internacionais. O lugar só abria depois das 14h. Chegamos lá e fomos indicados para a mesa da Fulana.
3a. A Fulana olhou para nossa cara, nossos papéis, e nos mandou falar com a Cicrana, da mesa ao lado.
3b. A Cicrana olhou para nossa cara, nossos papéis, e nos mandou falar com a Beltrana, na mesa logo à direita.
3c. A Beltrana olhou para nossa cara, nossos papéis, e nos mandou de volta falar com a Fulana, na mesa logo à frente.
3d. A Fulana olhou pra gente de novo e disse que então só quem podia resolver era a Coisinha, que estava chegando do almoço.
3e. Quando chegou do almoço, a Coisinha, sem opção, tomou conta do nosso caso, mas, para minha infelicidade, o sistema de registro na Marinha caiu, não voltou o resto do dia (eu esperei) e assim tive que retornar para Campinas.
DIA 2: Lá fui eu de ônibus para Santos continuar minha missão.
3f. Cheguei antes do almoço na Marinha Mercante, fui falar direto com a Coisinha, que me afirmou entre um sonho de valsa e outro que o sistema hoje estava funcionando. Daí se deu conta de que tinha esquecido de pedir pro meu pai assinar um papel quando estava lá no outro dia, e falando baixo me disse para clandestinamente falsificar a assinatura do meu pai pra resolver aquilo, o que fiz na mesma hora.
4. Achando que agora ia, segui para a Alfândega. Perguntei na portaria onde resolvia o meu problema, e me mandaram para uma sala no primeiro andar.
4a. O tio do guichê olhou para a minha cara e me mandou para um guichê no segundo andar.
4b. O tio do guichê do segundo andar olhou para a minha cara e me mandou para outro guichê do outro lado do mesmo andar.
4c. No guichê do outro lado, três funcionários liam e-mail e jogavam paciência impassivelmente, não se prontificando a dar um auxílio que fosse, porque o responsável por bagagem já tinha saído pra almoçar.
4d. Horas depois, já almoçados todos, o tio adequado me diz pra ir pro terceiro andar pegar uma senha para liberação da minha carga.
5. No terceiro andar, depois de esperar e ser atendido com má-vontade, me dizem que eu não podia pegar a senha porque a carga estava no nome do meu pai, e ele precisaria endossar o documento do registro de carga com firma reconhecida transferindo-a para mim caso eu pretendesse retirá-la sem ele. Revoltado, voltei para Campinas.
DIA 3
6. Munido de documento endossado e com firma reconhecida, procuração just in case e exercícios de respiração zen-budista, voltei para o terceiro andar da Alfândega e peguei a tal senha.
7. De volta ao guichê do segundo andar, fui informado que deveria fazer uma lista dos meus pertences presentes na mudança, dando valor a eles. E que deveria comprovar minha moradia no estrangeiro por período maior que um ano. Não, meu passaporte carimbado com todas as minhas idas e vindas não servia. E deveria comprar um envelope específico para encaminhar tudo, vendia nas papelarias ao redor. E que só retornasse depois do almoço.
8. Fui na papelaria e comprei um envelope, fui numa lan-house e tentei imprimir meus extratos bancários britânicos sem sucesso porque não lembrava a senha. Acabei imprimindo os editoriais da Jungle Drums em que se afirmava que eu trabalhei lá por um ano e torci para que colasse. Aproveitei e imprimi a lista dos meus pertences de forma genérica.
9. De volta ao mesmo guichêe da Alfândega, o tio deu entrada no meu pedido, passou meia hora dando comandos e digitando registros no computador, e daí entregou o monte de papéis para seus chefes. Que olharam, olharam, olharam, se convenceram que eu tinha morado no exterior e não era muambeiro, e liberaram minhas caixas de pagar impostos. A vistoria fiscal nas minhas caixas ficaria para o dia seguinte.
10. Soltando fumaça de raiva, segui para o escritório do Armazém para descobrir quanto deveria pagar já que ia retirar a carga no dia seguinte. Enfiaram a faca até o cabo, e eu, vendo minha conta entrar no vermelho, paguei.
DIA 4: Fui eu sozinho mais uma vez, deixando Pai e sua caminhonete de sobreaviso.
11. Caminhando e bufando descobri onde era o armazém, e depois de meia hora andando cheguei na portaria.
11a. O tio da portaria disse que ali era pra retirada da carga, que para marcar a vistoria eu devia ir para a outra portaria.
11b. Uma mocinha me recebeu, disse que estava já ciente do meu caso, tirou mais xerox, preencheu mais formulários, levou tudo para baixo e para cima, e me pediu pra esperar o momento da vistoria na sala dos despachantes, onde passei duas horas lendo revistas do ano passado.
12. Depois de muito tempo, me avisam pra ir lá acompanhar a abertura das caixas e aguardar o fiscal, que tinha chegado. Quase vendo a luz no fim do túnel, fui para o armazém em si, onde me apontaram minhas caixas. A que havia sido danificada estava toda remendada com fita para manter o conjunto coeso, já que o lado havia se rasgado. Mas aparentemente nada havia se perdido.
12a. Uma hora e tanto mais tarde, finalmente o fiscal dá o ar de sua graça. Ele chega, olha de longe minhas caixas abertas, me libera sem quase falar comigo. As caixas são fechadas, ainda incerto se ele tinha realmente me liberado, eu ligo pro meu Pai descer a serra.
13. Duas horas mais tarde, Pai avisa que está chegando; a mocinha me diz que é só entregar os mil documentos para o guichê na saída para “Uma última conferência”. Feliz que a via crucis vai chegar ao fim, entrego tudo ao rapaz do guichê, que, depois de muito conferir, me pergunta onde está a exoneração do imposto de renda. Eu pergunto, incrédulo, que exoneração, ninguém tinha me dito nada a respeito. Mas precisava da exoneração, a Secretaria da Fazenda ficava logo ao lado da Alfândega, quem sabe eu não conseguia pegá-la aberta? Desejando uma morte lenta e dolorosa a todos os burocratas e funcionários públicos, encontrei Pai, corremos até a Secretaria, mas ela já estava fechada.
DIA 5: Não aguentando mais ver a rodoviária de Santos, eu desço de novo a serra.
14. Portando o Envelope Com Todos Os Documentos, depois de perguntar para pessoas eu localizo o lugar em que se faz a tal exoneração. O tio lá quase me mandou de volta para o primeiro andar para que eu fizesse um registro preliminar eu mesmo, mas ficou com dó da minha cara desesperada, resolveu que seria mais fácil se ele fizesse tudo lá em cima, e em meia hora imprimia meu comprovante de exoneração. Ligo pra Pai de novo.
15. No meio da tarde, Pai chega no armazém comigo. Entregamos tudo naquela primeira portaria, e descobrimos que temos que esperar porque eles têm que registrar o carro e o motorista.
16. Mais uma hora de espera até que autorizem a entrada de carro e Pai… e ninguém mais. Eu tive que sair do carro e entrar pela outra portaria, como visitante, para ajudar a carregar as caixas na caminhonete.
17. Saímos eu por uma portaria, Pai e carro pela outra, com as caixas finalmente dentro da caminhonete. E eu convencido que valia muito mais ter pagado o dinheiro que as outras companhias, que entregavam em casa, cobravam a mais.