Eu tenho uma confissão a fazer.
Essa história toda de viagem de bicicleta pela Europa não passava de uma desculpa para conhecer a Costa da Caparica.
Meu sobrenome é Caparica, afinal. Desde que eu descobri que em Portugal existia uma praia cujo nome era o meu sobrenome, eu resolvi que um dia iria para lá. Achava o fim que ninguém da minha família conhecia o lugar. Em algum ponto da minha estadia em Londres, eu decidi que sairia da ilha, iria para França, e dali iria pedalando até Lisboa, para conhecer a Costa da Caparica.
Mas daí o Gui me disse pra eu visitar ele em Amsterdam antes de ir embora, e eu resolvi que fazia sentido, então eu decidi começar por lá. Depois, a Tutu me chamou para visitá-la na Itália, então eu achei que o desvio fazia sentido. Em seguida a Ludmila me chamou para conhecer o sul da França onde ela morava… e assim se traçaram todos os desvios que eu já narrei aqui.
Santa Déia em Seu Lar tinha usado seus contatos para me descolar um teto acolhedor em Lisboa: eu ficaria no apartamento da Aline, amiga do Marcelo, amigo da Déia. Sim, esse lance de amigo do amigo do amigo é um pouco assustador, mas tudo tinha dado tão certo até o momento, não havia porque não confiar que ia dar certo nesse final de jornada.
Cheguei em Lisboa pela manhã. O aeroporto da capital portuguesa difere dos de outras cidades importantes da Europa em que é bem próximo da cidade em si; a Aline tinha me dado instruções de como chegar na casa do Marcelo, e em nenhum momento tinha-se que pegar estrada ou algo do gênero.
Depois de montar a bicicleta, fui avançando por solo lusitano debaixo de um tempo ensolarado. Logo de cara, eu trombo com um outdoor exibindo… a Ivete Sangalo. Ela é a garota-propaganda de uma cerveja portuguesa, e está por todas as partes. Quanto mais eu adentrava a cidade, mais eu me dava conta da dominação brasileira na terrinha: cartazes com shows de Marisa Monte (esperado), Chico Cesar (curioso), Sandy & Junior (impressionante) e Gian & Giovani (incrível).
Mas comovente mesmo foi, depois de meses em que ao esforço de encontrar caminhos se somava o exercício mental de pedir orientações em língua estrangeira, poder simplesmente parar e perguntar como chegar à avenida tal sem ter que pensar. Tudo bem que os sotaques diferem bastante, mas eles nos entendem e a gente entende eles. Consegui chegar no apartamento do Marcelo sem maiores contratempos que minha sacola de supermercado cheia de bugigangas estourando no meio de um cruzamento lusitano.
Fui recebido pelo colega de apartamento do Marcelo, já que ele estava trabalhando. Depois de comer um pouco, tirei uma soneca (havia dormido quase nada na noite anterior), e depois resolvi ir conhecer a cidade, já que fazia um dia lindo lá fora. Me informei de onde ficava um metrô, do metrô perguntei onde era a oficina de turismo, e na oficina eu descolei um supermapa de Lisboa que indicava as principais atrações da cidade – procedimento padrão.
Deixei a Angelana presa perto da Praça do Comércio, e fui andando pela margem do Rio Tejo. Logo me vi na frente do Museu do Fado, e, apesar de ser meio avesso a museus, não resisti: paguei entrada e fui ver qual que era a do fado. Gostei horrores, é um museuzinho muito bem organizado, mostra a trajetória do fado toda, cheio de recursos multimídia.
Dali eu saí e resolvi visitar o castelo de são Jorge. Perguntei para uns transeuntes como eu fazia para chegar lá, eles me olharam com uma cara incrédula e me disseram para subir sempre, ora pois. E eu esperando uma indicação de ruas. Achei que isso seria uma prova da parvoíce lusitana, mas certos estavam eles. O castelo de são Jorge fica no alto do morro, e para chegar lá pega-se um emaranhado de ruelas jogadas pelas encostas. É virtualmente impossível descrever um caminho do sopé até o cume sem listar trinta ou quarenta vias. O mais sensato é simplesmente subir sempre, que mais cedo ou mais tarde chega-se no castelo.
Durante minha tenra infância toda ensinaram-me a desenhar castelos com torres de dentinhos quadrados no topo. Provavelmente vem desse castelo, que é exatamente assim. O castelo por si só já é muito legal de se ver. Além disso, ele oferece uma vista fantástica da cidade, e nele também está uma apresentação multimídia que conta (meio apressadamente, devo dizer) a história de Lisboa. Dentro do castelo e à sua volta, lojinhas e mais lojinhas com todos os suvenires que você pode querer e imaginar de Lisboa.
À noite conheci Aline, minha anfitriã, e ela me instalou confortavelmente em sua casa. De lá, fomos jantar na casa de amigos do Marcelo, os quais nos deleitaram com uma legítima bacalhoada lusitana (de bacalhaus noruegueses, todavia; aparentemente não existem mais bacalhaus nas costas portuguesas). Nessa ocasião, descobri que bué giro quer dizer muito legal, e me convenci que, parafraseando Mark Twain, Brasil e Portugal são dois países separados pela mesma língua.
No dia seguinte, fui euforicamente cumprir minha missão de conhecer a Costa da Caparica. Pedalei até a estação de trem mais próxima, descobri como fazia para cruzar o estuário do Tejo, e uma hora mais tarde Angelana Paula estava rodando em direção à praia que me dá o nome. A jornada demorou um pouco mais do que devia porque eu não resistia tirar uma foto junto de cada placa com “Caparica” escrito que passava pelo meu caminho.
A Costa da Caparica é uma cidade-satélite de Lisboa, e, devo orgulhosamente dizer, possui as melhores praias que eu vi na Europa. Até porque segue o conceito brasileiro de praia: ondas, areia, alegria. Da cidade em si, desenrolam-se quilômetros e quilômetros de praias, mais ou menos familiares, ao gusto do banhista. Comprei um par de óculos de sol muito giros no começo das praias (os anteriores tinham sido roubados em Barcelona), montei na bike e fui pedalando até a última. Me tornando cada vez mais envaidecido da minha costa, e cada vez mais convencido de que os britânicos são um povo muito triste por crescerem tendo Brighton como referência de praia.
À noite eu e Aline íamos fazer alguma coisa, mas acabamos nos descobrindo cansados demais para sair de casa, e ficamos vendo novela. Belíssima se aproximava dos capítulos finais, os quais eu não tinha assistido via internet na Inglaterra. Para minha indignação, porém, constatei que em Portugal ignoram acintosamente o padrão Globo de qualidade. A novela começa atrasada, reprisa dez minutos do dia anterior, e daí segue com mais quinze minutos de novidade. As interrupções para intervalos comerciais com ganchos cuidadosamente planejados pelos autores são desconsideradas, e os comerciais entram quando os portugueses acham que têm que entrar, mesmo que seja no meio de uma cena. Revoltante.
Meu penúltimo dia na Europa foi gasto batendo perna pelo Chiado, onde se encontram inúmeras livrarias e restaurantes. Visitando a Fnac que fica num shopping na área, me dei conta de como o Brasil já colonizou Portugal. Seção de discos: uma estante de dois metros de largura de discos portugueses, outra do triplo do tamanho de discos brasileiros. Seção de livros: a quantidade de livros portugueses é tão inferior à de brasileiros que acharam por bem unir tudo como literatura lusófona. E não se iluda: de recente, tem bem pouca coisa lusitana mesmo.
No dia final, Marcelo ia fazer uma feijoada na casa de amigos seus que moravam perto de Estoril, e levou eu e Aline junto. A feijoada demorou para sair; enquanto esperávamos, deixamos o Marcelo cozinhando e fugimos para a praia. À noite, Aline me levou para o Bairro Alto, onde brotou a boemia lisboneta. Bares e mais bares, de todos os tipos, num passeio delicioso que eu devia ter feito antes.
E, na manhã seguinte, fiz a pedalada final de volta para o aeroporto, já mal contando as horas. O Brasil me esperava.