Em futuro estudo, a ser publicado em conceituada revista do meio científico, serà comprovada nao só a existência, mas os índices alarmantes da incidência da cárie cerebral. O fenômeno, que atinge povos de diversos paises, tem como uma de suas principais causas, como é de se esperar, os péssimos hábitos alimentares das populacoes, cultivados, principalmente, pelo consumo exagerado de enlatados americanos, novelas acucaradas e conceitos embutidos.
A fim de evitar a extracao do orgao sob risco de seqüelas irreversíveis, como por exemplo, o pensamento banguela, recomenda-se expressamente o uso contínuo e correto do fio mental. E da escova de mentes.
Vamos fazer do Brasil um país de sorriso branco… e preto e mulato e cafuzo e índio e… hálito mestico!
– Michel Melamed, Regurgitofagia
Ha um ano, quando fui pra Barcelona, muito me desconcertou o estouro de O Codigo Da Vinci. Todos os dias, quando eu ia pra praia, eu via dezenas de pessoas lendo essa desgraca enquanto tomavam sol, em traducoes diversas. Quanto mais gente eu via lendo esse livro, quando mais saia outras obras oportunistas explicando/negando/desvendando o tal do codigo, mais eu me resolvia que nao iria le-lo.
Pois o vicio me venceu.
Na minha primeira manha em Antibes, eu percebi que nao tinha mais o que ler. O Historia de Cronopios y de Famas tinha chegado ao fim, e eu nao tinha mais nenhum livro na bagagem. Foi entao que eu olhei pro lado e vi uma copia do Da Vinci Code, traducao francesa, entre os livros da Ludmilla. Ela mais que rapidamente me explicou que tambem nao pretendia le-lo por estar exausta do hype em torno dele. Eu comecei a ler as primeiras paginas pra matar meia hora ociosa… e me dei mal.
Por mais que eu me incomode com as tecnicas manjadas de criar suspense, com os capituos curtinhos pra facilitar os ganchos, com os pensamentos em italico, com as mudancas de foco narrativo por pura preguica, e com a ncessidade de se mastigar tudo pro leitor, eu estou preso agora a necessidade de saber como a historia acaba. E, pior, gracas a Lois, uma das principais surpresas do final ja me foi revelada. Mas a necessidade de ter algo a mao pra ler nos momentos imoveis e mais forte.
Como todo bom viciado, eu tenho uma boa desculpa: estou lendo a traducao em frances, e uma boa maneira de aprimorar meus conhecimentos da lingua. Mas me da uma certa vergonha, e eu me pego tentando esconder a capa do livro quando estou lendo-o na praia exatamente como faziam as centenas de pessoas que eu menosprezava em Barcelona. Mas nao adianta eu me enganar. No fundo eu nao vejo a hora de descobrir o que acontece com a Sophie Nevau e o pamonha do Robert Langdon.
E praia e o que nao falta. Nesses ultimos dois dias, como Ludmilla tinha que trabalhar no hotel, eu passei o horario comercial percorrendo a costa de bicicleta, deslizando com a ajuda da brisa maritima. A costa do sul da Franca e uma fila de cidades sem intervalos: Cannes, Jean Les Pins, Antibes, Biot, Cagnes-sur-mer, Cros de Cagnes, St Laurent du Var, Nice, Villefranche sur Mer, St Jean Cap Ferrat, Beaulieu-sur-mer, Eze-sur-mer, todas numa faixa de 70km que eu enfrentei com a intrepida Angelana Paula.
O percurso todo e agraciado com aquelas aguas azuis #0000FF que dao vontade de ir parando o tempo todo. As praias de Cote D’Azur sao todas de pedra, o que justifica a cor: sem areia, nao tem o que turve as aguas. Mas as pedras sao menores que as de Brighton, o que deixa as praias francesas bem mais confortaveis que aquela desgraca britanica. Gente bonita e saudavel por todos os lados, com aquele ar bem-nutrido de quem tem dinheiro. E considerado algo chique e levemente ousado que as mulheres facam topless, entao existem peitos a mostra das mais variadas idades e niveis de bronzeamento. Em ambos os dias fui parar numa praia em Eze-sur-mer, com ondas agitadas, profundidade que aumenta rapidamente, e com tanto sal que se sai da agua mais salgado que a esposa de Lot.
As cidades sao todas lindas, chiques e caresimas, cheias de lojas de grifes e pessoas que as usam casualmente. Cheguei a ver uma mulher com uma mala Yves-Saint-Laurant e bolsa Prada. Tudo e muito limpo, e, depois de se percorrer essas cidades, entende-se de onde os urbanistas do Rio de Janeiro buscaram a inspiracao para construir o Rio (o Dejaneiro e outra historia).
Ao voltar ao hotel, me era permitido compartilhar da rotina da Ludmilla. Nos encontramos sempre depois das dez, quando acabava o turno noturno da cozinha; ela chegava fantasiada de chef, com as manchas dos molhos dos dias no uniforme, cheia de historias pra contar. Enquanto compartilhavamos os feitos do dia, ela fazia uma "jantinha simples, nada demais", e, em quinze minutos, sacava do fogaozinho eletrico pratos que minha limitada capacidade culinaria jamais conseguiria conceber, todos lindos e saudaveis, regados a coca-cola. Em contrapartida eu lavava a louca. E logo entao comecavam as visitas.
Os hoteis da regiao todos tem um sem-numero de estagiarios que trabalham neles durante a alta temporada, seja porque querem trabalhar com hotelaria, seja porque apenas querem fazer um dinheirinho extra. A imensa maioria nao e francesa, e ficam quase todos hospedados em quartos dos hoteis que trabalham. Sem televisao, sem conhecidos externos… assim que todos jantam, comecam a bater de quarto em quarto, e sem combinar muito acabam todos reunidos num quarto so, falando abobrinha e fazendo bom uso dos hormonios. Fiquei maravilhado com essa turma do mundo todo, todos da nossa idade, com historias pra contar e um interesse imenso na novidade da semana (eu). Quase todos com o frances como segunda lingua, o que tornava as conversas bem mais faceis de compreender e muito didaticas para mim.
Tanta convivencia, alem de fazer com que qualquer fofoca se espalhasse instantaneamente entre todos, criou um monte de expressoes que so eles entendiam. Sempre que um deslocamento coletivo se fazia necessario, alguem dizia "Allez les bleus!", o grito de guerra da selecao francesa, aprendido depois da copa do mundo, apesar de que em seu contexto correto a expressao nao faz o menor sentido. E sempre quando queriam insinuar as transas alheias, usavam "burum-burum!", como motorzinho de carro, giria otima que Lud e eu decidimos implantar no Brasil quando retornarmos. Esperamos um dia que alguem desconhecido nos diga "burum-burum" casualmente, e entao teremos o prazer secreto de saber que quem lancou a giria fomos nos.
O influxo de visitantes era ainda maior porque, para a surpresa da propria, Ludmilla estava de partida. Tinha conseguido uma bolsa para estudar gastronomia em Sao Paulo, descobriu isso quando as aulas tinham acabado de comecar, e entao urgia que zarpasse de volta pra patria amada o quanto antes. Em uma semana ia-se embora, e o povo queria aproveitar de sua presenca o maximo possivel. A rotina do hotel fazia com que fossem chegando as onze da noite, e so partissem depois da uma da madrugada – e isso porque tinham todos que cuidar da clientela na manha seguinte, senao ficariam muito mais.