Para una bicicleta, ente dócil y de conducta modesta, constituye una humillación y una befa la presencia de carteles que la detienen altaneros delante de las bellas puertas de cristales de la ciudad. Se sabe que las bicicletas han tratado por todos los medios de remediar su triste condición social. Pero en absolutamente todos los países de la tierra esta prohibido entrar con bicicletas. Alguns agregam: "y perros", lo cual duplica en las bicicletas y en los canes su complejo de inferioridad.– Julio Cortázar, Historias de Cronopios y de Famas, "Vietato introdurre biciclette"
A passagem para Nice ja estava comprada ha uma semana, mas foi so no dia da partida que eu criei vergonha na cara e arrumei as malas. O dia anterior foi gasto internetando, fazendo pesquisas de coisas para se fazer na Riviera Francesa, e jogando buraco com a Tutu. Afinal, com tao pouca bagagem, quanto tempo pode demorar empacotar tudo e zarpar?
Quarta de manha, Rodi e Tutu acordaram cedissimo e partiram para Voghera, onde tomariam vacina contra malaria para que pudessem ir pra India. Eu dormi mais uma hora, depois tomei cafe e fui reunir os pertences.
E eis que eu percebo que minha chave multi-uso, com a qual eu desmontava a bicicleta, tinha tomado cha de sumico. E assim, mesmo com tudo na bagagem, tive que esperar o comercio abrir, e com meu italiano de novela do Benedito Ruy Barbosa fui encontrar um lugar onde comprare as tchaves para desmontare la bitchicleta. Mama mia!
Cheguei na estacao quase dez horas; retirar os membros da Angelana Paula e colocar tudo guardado na mala-trambolho levou mais uns vinte minutos. O trem para Nice saia de Milao as 11:10h, e, com os atrasos dos trens italianos, eu nao chegaria la a tempo de jeito maneira. Mas eis que olhei com mais atencao para o quadro de partenze, e vi que um trem pra Nice saia as 11:30h ali de Pavia mesmo, vindo de Milao. So podia ser o mesmo para o qual eu tinha comprado passagem, entao despenquei os trambolhos ali na plataforma indicada e fiquei esperando.
E foi assim que, em mais uma das supersortes dessa viagem, eu nao perdi o trem pra Nince e ainda economizei a passagem (e o tempo) pra Milao. Tirando que eu tive que correr pro fim da plataforma com toda a carga nos ombros e ainda joga tudo no vagao que me cabia nos poucos minutos que o trem parou em Pavia, tudo deu certo. Quando ele partiu, meu lugar na cabine indicada pelo bilhete ainda me aguardava, e todos meus pertences seguiam comigo.
Minhas colegas de cabine eram cinco nonas italianas, providas de um estoque inacreditavel de sanduiches, aguas e de revistas de fofoca, tudo compartilhado entre elas. Volta e meia uma, brincando, me oferecia um pedaco de sanduiche, e eu recusava, educado. Eram seis horas de viagem, elas lendo sobre os famosos italianos, e eu avancando no Historias de Cronopios y de Famas, do Julio Cortazar. As leituras nao resistiram ate o fim da viagem, entao, depois de quatro horas, eu pedi a Grazia emprestada a uma delas, e fui decifrando as trivialidades que a Scarlett Johansson dizia sobre seu ultimo filme em italiano. Nenhuma nona quis ler as historias surreais do Cortazar em espanhol, entao, assim como as vovozinhas brasileiras, ficaram conversando sobre netos e noras, remedios e reumatismos, pontes de safena e pontos em cruz.
Por volta das tres e meia da tarde os trilhos passaram a seguir a costa, e entao eu vi pela primeira vez a famosa Cote d’Azur. Sob um sol cristalino, um mar de um azul photoshop que te faz duvidar do que ve. Ja sentindo o cheiro do mar, abandonei as nonas e passei o resto da viagem no corredor do vagao. O trem chegou meia hora atrasado, mas eu nem me importei, de tao linda que era a paisagem. O mesmo expediente de sempre se repetiu: de Nice peguei outro trem para Antibes, e, meia hora depois, a Ludmilla me encontrou na frente da gare, parafusando as rodas na Angelana Paula.
Um leve estranhamento basico rolou entre Ludmilla e eu nos primeiros minutos de reencontro. Eu conheci a Ludmilla ha cinco anos, no laboratorio de canto coral de Itajuba, e fomos mantendo contato via internet desde entao. Nesse meio-tempo, eu tirei o aparelho dos dentes, cortei meus cabelos compridos, tirei a barba e perdi as espinhas; a Lud fez cirurgia de reducao do estomago e perdeu setenta quilos. Eu fui pra Londres, e ela foi pra Antibes, fazer estagio em gastronomia num hotel-spa. Um nao fazia muito ideia da atual aparencia do outro, o que nao nos impediu que em meia hora estivessemos tricotando animadamente.
Fomos caminhando e papeando para o hotel onde Ludmilla trabalha e mora. Ainda sobrava muito assunto quando Lud me deixou no quarto pra pegar no batente fazendo janta para os hospedes. Eu fiquei estudando os mapas dos arredores, querendo que o dia seguinte chegasse logo pra eu desbravar a costa azul ate ela desbotar.