O dia seguinte a minha viagem pelo leste da Italia foi gasto recarregando as baterias. Davi, um amigo do Rodi, estava de passagem, entao resolvemos aproveitar o sol e ir nadar no rio de Pavia. Obviamente, ao chegarmos na prainha que os nativos usam, as zanzaras comecaram a nos comer vivos, entao depois de 30 segundos resolvemos migrar para um bar num barco na outra margem do rio, onde nao havia esses vampiros em forma de inseto e se dispunha de cadeiras e um chuveiro para se fritar ao sol com mais conforto. Passamos o dia papeando e jogando canastra paraguaia, jogo de baralho que minha familia tomou como missao difundir pelo mundo.
Segunda-feira Tutu tinha que ir para Milao para resolver os pepinos do visto que ela tinha que tirar para ir pra India daqui a um mes. Ocasiao perfeita para que eu visitasse o ultimo item da minha lista italiana, entao as dez da manha estavamos os dois na estacao de trem de Pavia, rumo a Milano Centrale. E uma sensacao muito esquisita descer mais uma vez na mesma estacao, sem nunca ter avancado muito na cidade que a abriga, mas isso estava prestes a ser resolvido.
Compramos o passe de um dia de metro, e assim saimos da estacao de trem para o centro da cidade. Otilia me disse que Milao e uma mini-Sampa metida a besta, e devo dizer que e a mais pura verdade. Milao e uma cidade business: fica claro ao ver o movimento que todo mundo la tem algo a fazer. Desde o metro a sensacao que se tem e de estar em Sao Paulo mesmo. A familia da Giovanna da novela se preocupava tanto com o que seria dela em Milao, nem precisavam, morando em Sampa ela tiraria Milao de letra.
Acompanhei Tutu ate o consulado da India, que ficava a poucos quarteiroes do Duomo e das outras atracoes turisticas que o cercam. Vendo o tamanho da fila, combinamos de nos encontrarmos na frente da catedral em uma hora e meia, entao deixei ela com o gibi do Pato Donald em italiano pra enfrentar a burocracia indiana e fui bater perna.
Rumei direto ao Castelo Sforzesco, um castelo medieval que abrigava os habitantes de Milao na Idade Media em tempos de necessidade, e ainda resiste, hoje em dia abrigando obras de arte. Da pra ver o buraco do fosso (sem agua, infelizmente), as muralhas, muito bacana. Atras fica o Parque Sempione, muito grande e muito bonito, onde tive a experiencia surreal de ver um casal de noivos japoneses tirando suas fotos de casamento cercados de seus amigos niponicos, no que deve ter sido uma boda assaz nababesca para os padroes de qualquer lugar do mundo.
Voltei a catedral pouco depois do meio-dia, e Tutu ja me esperava la. O visto sairia as cinco da tarde, entao nos tinhamos um tempo razoavel para passear. Entrei na catedral (mais uma pra colecao), e depois fomos dar um role na Galleria Vittorio Emanuele, um lugar lindo, com teto de vidro e abobadas super-elegantes, onde ficam todas as lojas mais chiquetes de Milao. Calcamos a cara e entramos na Louis Vutton, na Yves Saint-Laurant, na Chanel, na Gucci e na Prada, e eu descobri que na verdade o que me agrada mesmo sao os ternos Armani, que provavelmente ficarao me esperando ate a proxima encadernacao. Entre uma loja e outra, fizemos a parada obrigatoria num mosaico de um boi no meio da galeria; diz a tradicao que se voce finca o calcanhar no saco do boi e da duas voltas voce ha de voltar pra Milao, o saco do coitado do boi ta ate afundado de tanta gente que tortura o coitado, o que nao me impediu de fazer o mesmo.
Tutu queria ir visitar o Cimiterio Monumentale, entao pegamos um metro e um bonde debaixo do sol intenso para tentar ver os tumulos de estatuas imensas. So nao sabiamos que, assim como todos os museus de Milao, o cemiterio fecha de segunda-feira, e demos com o nariz no portao. Sem ter o que fazer, resolvemos ir de volta ao consulado a pe mesmo, e assim passamos por um parque muito aprazivel que nos aliviou do calor macondiano em que nos encontravamos. No meio do parque tinha uma fonte com um chafariz; eu e Tutu nao tivemos duvidas, compramos um picole cada um e sentamos na borda da fonte com os pes dentro da agua. Quando terminamos o picole, mais oito pessoas tinham nos imitado, saimos de la nos achando os trend-setters de Milao.
Tutu teve que encarar mais meia hora de fila pra conseguir resgatar seu passaporte, e eu nao pude entrar no consulado. Mas felizmente tudo deu certo, e pudemos retornar a Pavia com todas nossas missoes cumpridas. Para nos despedir de Milao, compramos mais uma granita cada um, e demos sorte de faze-lo num lugar que usava frutas de verdade: a granita de melancia que eu comprei vai ficar pra sempre na memoria como um dos refrescos mais gostosos que eu ja tomei.