Cynthia Miranda tem uma lista de ocasioes e acontecimentos que ela classifica de "experiencias antropologicas". Estivesse ela se aventurando no festival Sonica 2006 com a gente, com certeza esse periodo confortavelmente encontraria seu lugar no topo da lista.
Festivais de musica eletronica sao um ajuntamento de mundrungos, dorme-sujuos, rastafaris, encardidos e maloqueiros, todos acampando para alucinarem por dias seguidos ao som de musica eletronica. No caso do Sonica, a concentracao era menor e os frequentadores peneirados pelo preco um tanto salgado do ingresso. Tutu, Rodi e eu talvez nos enquadrassemos na categoria dos mundrungos mauricinhos, ja que certamente estavamos entre os mais light naquele festival.
A sombra do descampado onde tudo se passou era muito pouca; 90% dos participantes armaram suas barracas sob o sol ardente mesmo, talvez indiferentes ao fato de que suas habitacoes seriam verdadeiros fornos ao longo dos dias. A vida era coletiva: os banheiros, quando usa-los era inevitavel, eram quimicos; o banho era em chuveiros coletivos, frios e ao ar livre. Depois que a musica comecou na sexta-feira a noite, continuou ate segunda a noite, onipresente e incessante.
Nao e segredo que a galera vai nesse tipo de evento pra pirar o cabecao, mantendo-se desperta e dancando, indiferente a sol, hora e temperatura, a base das mais variadas drogas e remedios tarja preta. Os carabinieri da policia italiana faziam plantao nos arredores do festival, parando os transeuntes com as pulseirinhas do evento e revistando dodos os bolsos, caixinhas, bolsinhas, orificios e compartimentos que podiam.
A 1,5 km ficava Capodimonte, uma cidadezinha a beira de um lago que deve ter lucrado muito com o influxo da juventude transviada naquele fim de semana. Logo na primeira manha nos tres descobrimos uma casinha de cha com um banheiro maravilhoso, e passamos a bater cartao la todos os dias para tomar cafe da manha e usar de suas facilidades. O lago tinha uma praia de areia preta cercada de arvores, um oasis para todos os malucos encrustados de poeira quando o sol batia a pino.
A pista de danca ficava num canto do descampado, uma tenda gigante ladeada de alto-falantes potentissimos. O teto da tenda era espertamente composta de duas tramas lona com buracos redondos sobrepostas, conseguindo assim fornecer uma sombra decente e ao mesmo tempo deixando o ar passar, evitando o famigerado efeito chuva de eventos como o Skol Beats. Para aqueles que nao sao iniciados, o efeito chuva acontece quando centenas de pessoas dancantes suam, o suor evapora, chega na lona fria da tenda, se condensa e pinga de volta nos individuos abaixo, gerando uma chuvinha de suor coletivo.
Ao redor da pista instalou-se o comercio. Varias vias irradiavam da area da tenda principal, vendento roupas que brilham sob luz negra, acessorios de artesanato, instrumentos pra potencializar a marofa, CDs de musica psicodelica, itens diversos de cultura pseudo-indiana tao querida aos trancers, piercings e bebidas. Mais distante ficava a praca de alimentacao, com varias tendas de uma variedade e qualidade de comida surpreendentes.
Depois de termos passado a sexta se instalando e colocando a fofoca em dia, eu, Rodi e Tutu, maloqueiros mauricinhos que somos, so fomos curtir a pista depois de termos comido, tomado banho e passado protetor solar. A maioria, nao tao cuidadosa estava la fritando desde o raiar do dia, provavelmente engatados da noite anterior. Rodi levou para a pista o Pirulito, seu sapo de pelucia trance, e ficamos os tres la ate noite alta, dancando, com poucas pausas para o descanso. Quando fomos nos recolher para nossas barracas, o fluxo maior era no sentido contrario.