Trilhos, s’il vous plait

Hoje: 146,8 km
Total: 1490,4 km

Minha avo Norma e uma das leitoras mais assiduas desse blog. Le todas as mensagens e envia comentarios. Quando eu comecei a jornada, eu pedi que ela orasse por mim. E a reza dela e forte. Hoje, por exemplo, foi um dia em que tudo aconteceu como "O Senhor preparou", pra usar as palavras dela.

O plano que eu tracei com a Tutu ontem foi de ir pra Roma encontra-la num festival de musica eletronica, e de la dias depois ir pra Milao passar uns dias na casa dela. Pra isso, eu precisaria sair da zona rural da Franca primeiro. Entao eu resolvi que chegaria em Dijon hoje de qualquer jeito.

Nem era uma distancia absurda – 130 km. Mas, de novo, o calor foi senegalesco. A paisagem foi bonita em varios momentos, mas, nos ultimos 30 km, aconteceu a ultima grande despedida: atravessar uma serra antes de chegar na cidade. Longas subidas na marcha 1, serpenteando montanha acima, seguidas de longas descidas a 45 km/h, sucedidas por outras subidas… Esse ultimo dia teve tudo de bom e de ruim das viagens ciclisticas.

As 16:30h eu finalmente cheguei em Dijon. Cidade de respeito, tem ate shopping center na entrada. Localizei a estacao de trem e fui me informar sobre como chegar a Roma. Tinha um a noite, mas estava lotado. Mas dava pra pegar um pra Milao. Bem, pensei, na pior das hipoteses, vou pra Milao, e de la pego um trem pra Roma, que deve ter bem mais. Perguntados sobre como eu podia fazer pra levar Angelana comigo, disseram que eu teria que comprar uma mala especial que te permite desmontar a bike e leva-la como bagagem normal.

Comecou entao a corrida contra o tempo – ja eram seis da tarde, e o comercio fechava as sete. O escritorio de turismo me jurou que o unico lugar que teria a tal mala seria no shopping da entrada. Fui eu lah. Seis e meia, o povo da loja me diz que tinha mas acabou. Depois da minha cara triste, me indicaram uma outra loja. Dez pras sete, eu consegui achar o lugar, e tinha la a ultima mala de bicicleta da cidade, que eu comprei sem hesitar.

Retornei a estacao de trem, e descobri que nao tinha mais passagem nem pra Milao. O tio da bilheteria me disse que, se eu quisesse, eu podia esperar o trem chegar as nove da noite e ver se tinha algum lugar sobrando, mas ele nao garantia nada.

Vitima do calor intenso e da correria das ultimas horas, eu estava imundo e encardido, querendo nada mais que um banho, mas nao havia o que fazer. Achei um churrasquinho grego perto da estacao, comprei um litro de refri e fiquei na calcada comendo e esperando chegar a hora de arriscar o trem, me sentindo mais abandonado que a pequena orfa Annie.

Quarenta minutos antes do trem chegar, desmontei rodas, bagageiro e para-lamas da bike, falei pra Angelana nao se assustar que era assim mesmo e fechei o ziper da mala. Comecei a carregar todos meus trambolhos pela estacao de Dijon, agora, alem de suado, coberto de graxa. Cheguei na plataforma e descobri que o trem pra Roma estava atrasado meia hora. Nesse periodo de espera, descobri que alem de tudo nao tinha albergue na cidade, entao, se desse errado, teria que ou pagar um hotel careiro ou montar a bike e ir cacar um camping as onze da noite.

Mas no fim das contas as coisas eram pra dar certo mesmo. Chegou o trem pra Roma, que vinha antes do de Milao. Perguntei se tinha um lugar pra mim, o cara olhou na lista, falou que um lugar soh tinha, mas tinha que pagar em cash. Eu falei que sem problema, botei as malas no vagao e, agradecendo aos ceus e a Santo Expedito pela graca alcancada, sentindo uma alegria imensa de estar num veiculo veloz e livre da obrigacao de pedalar pra chegar aos lugares, fui incomodar o povo da minha cabine com meu excesso de bagagem.

Meus colegas de cabine (um casal franco-portugues e 3 coreanas) foram bem compreensivos com os trambolhos. Fiquei sabendo, por conta deles, que era inacreditavel que eu tinha conseguido fazer o plano dar certo, porque o trem que vai de Paris a Roma so faz UMA parada na Franca inteira, em Dijon. Se eu estivesse em qualquer outra cidade nao teria conseguido ir pra Roma naquela noite.

Citando mais uma vez vo Norma, Gloria Deus!