Já deu

Hoje: 77,3 km
Total: 1343,4 km

Desde que comecei essa viagem eu tenho um pavor tremendo do que aconteceria quando furasse um pneu. Eu ficava me xingando por nao ter mandado o bicicleteiro aplicar um protetor interno que juram que impede tudo de atravessar a borracha e chegar a camara. Ficava imaginando o que seria de mim se isso acontecesse quando eu estava a 40 km/h numa descida. Eu fiz um curso de mecanica de bicicletas em Londres, mas nao tinha ainda tido que colocar meus conhecimentos a prova.

Pois. Acordei cedo hoje, tomei cafe sozinho, armei o castelo e parti de volta para Troyes, a fim de retomar minha rota. O destino era Chaumont. Peguei uma curva errada que me levou para a saida errada, voltei, achei a saida certa, subi no acostamento pra deixar um caminhao passar… e bum. Pneu traseiro vazio.

Devo dizer que nao fiquei nada contente, mas parte consideravel da minha bagagem E de kit reparos: ferramentas, bomba, camaras de pneu sobressalentes. Entao encostei Angelana Paula numa arvore, desmontei o castelo, tirei o material necessario das bolsas, e pus maos a obra.

E, olha, nao e que deu tudo certo? Tirei a roda de tras, achei o vilao (um caco de vidro infimo, comprido so o suficiente pra fazer um microfuro na camara e deixar Angelana manquitola). Tirei a camara furada e joguei ela fora, pus uma nova do meu estoque, extrai o vidro do pneu pra que nao furasse a camara nova (achou que ia me pegar, ne?), pus a roda de volta, enchi o pneu, e voila! Angelana era uma bicicleta sa de novo! Fiquei muito orgulhoso de mim mesmo.

O resto do dia, no entanto, nao foi muito agradavel. A estrada passava por um parque nacional, contornando um lago; supostamente seria uma paisagem linda de se ver. Mas os entornos nao foram muito diferentes do que tenho visto ate agora: plantacoes, pastos. O lago ficou ao longe e nao embelezurou nada a vista.

E o calor, ceus, me fez perder a boa. Mesmo com a brisa natural da bike rolando destemidamente estrada adentro, eu suava montes, o suor caindo nos olhos. As subidas me exauriam, e nao tinha sombra o suficiente. Uma e pouco eu achei um camping numa cidade pequena e parei.

Nesse ponto todas as reflexoes que eu vinha fazendo ao ultimo dos ultimos diaAas se encaixaram. E a conclusao foi: eu nao estava me divertindo mais. Na verdade, eu nao estava me divertindo ha varios dias. Eu tinha uma lista de lugare que eu realmente queria visitar. Se pedalasse so de manha, como o verao permite, eu nao chegaria neles a tempo. Pedalando o tanto que devia, sofreria muito.

E, por cima disso, tem de estar sozinho demais. Solidao na estrada ate que era de se esperar (apesar que teria sido encontrar um outro doido seguindo na mesma direcao), mas ficar sozinho todas as noites estava sendo foda. Eu queria ver gente, trocar historias. No embate dos pop defuntos citados ontem, o Cazuza venceu a guerra.

Armei a Iracema no camping, tomei banho, e fiquei la na sombra lendo e esperando o calor passar. Dei umas voltas na cidade (Bar sur Albe), descobri que existia uma piscina publica, voltei pro camping, botei meus trajes de banho, e fui la ficar de molho na piscina.

A noite liguei pra Tutu, a primeira amiga na lista dos encontros programada no itinerario, pra adiantar minha data de chegada na Italia. Ficou acertado que eu pegaria um trem no dia seguinte pra Roma. Avisei a base em Barcelona, e gastei o cartao telefonico que me restava em outra ligacao-relampago pro Brasil. O grande desafio ciclistico chegava ao fim.