Feriado nacional

Hoje: 30,4 km
Total: 833,2 km

O tio que me recebeu ontem no albergue me jurou que Cambrai era tao cheia de coisa pra fazer que um dia so nao era suficiente pra ver tudo. E eu, tolinho, acreditei.

Cambrai e uma cidade que parecia bem maior no mapa. Pelo pouco que descobri, faz parte de um circuito de cidades amuralhadas do norte da Franca, por ter um dia sido a fronteira do Sacro Imperio Romano Germanico e o reino dos Francos. Dando umas voltas, da pra ver as portas e torres da muralha que ainda restam de pe. Tem um centro bem pequeno, e daria sono a um habitante de Araraquara.

Tudo bem que certamente o fato de ser feriado nao ajudava. Minha primeira missao foi correr ao supermercado e comprar comida antes que ele fechasse mais cedo e eu ficasse com fome. Depois fui pedalar pela vila.

Para minha decepcao, em meia hora eu ja tinha percorrido todas as ruas do centro e outras tantas nao tao centrais assim. Cambrai tem uma igreja barroca nao muito impressionante, parques com jardins muito bonitos, e uma praca central cercada de cafes e restaurates, todos com mesinhas na calcada cheias de gente nao importa a hora. Mas nada que me ocupasse muito.

Resolvi entao aproveitar o sol e ir pro albergue tentar deixar meu corpo menos listrado. Me juntei a unica familia que esta hospedada aqui alem de mim no gramado, e fiquei la fritando. Terminei de ler Los Funerales de la Mama Grande, do Gabrel Garcia Marquez, e comecei a ler Passagere du silence, de Fabienne Verdier, que e o relato real de uma francesa que foi a China estudar caligrafia. Imersao total na lingua de Moliere. Fiquei la estirado ate ficar bem-passado.

Almocei, tomei mais sol, tomei banho, li, tirei uma soneca, e o dia nao acabava. Foi me dando uma tristeza de nao ter o que fazer. Revi as rotas, e passeei mais um pouco so pra confirmar a minha certeza de que estava tudo mais morto ainda depois do meio-dia.

As dez e meia da noite finalmente escureceu, e eu fui pra praca. Eu e o resto da cidade inteira. Quando apeei da Angelana Paula, dava pra ouvir ja uma banda local tocando "I Will Survive" a francesa. Milhares de pessoas ocupavam o espaco, esperando os fogos de artificio. As onze horas as luzes da praca se apagaram e eles comecaram. Devo dizer que foram 25 minutos dos fogos de artificio mais bonitos que eu ja vi na minha vida. Musica classica ia tocando no alto-falante, e as explosoes iam acompanhando a musica. Devo dizer que fiquei comovido e com saudades quando tocou a Marcha Turca. Tudo acabou com um grande cabum final, o povo aplaudiu, e a sirene de uma ambulancia soou. Alguem deve ter sido atingido por um fogo que voou mais baixo…