Cadê a couve?

Hoje: 89,9 km
Total: 645,5 km

Tinha resolvido que, apesar de ser pouca viagem, pararia hoje em Bruxelas. Nao so porque e uma capital nacional, ou porque e a sede do parlamento da Uniao Europeia, mas tambem porque deve ser uma das poucas cidades que dao nome a um vegetal, a infame couve-de-bruxelas, tambem conhecida como brusselsprout. Bruxelas fica a 40 km da Antuerpia, e chegar la haveria de ser moleza.

E quase foi. Durante os primeiros 15 km, a ciclovia seguiu uma megarodovia, a A41, que liga a terra do Ruy Barbosa a terra da couve. Eu la pedalando feliz, sem camisa, tentando aproveitar o sol pra deixar o bronzeado mais uniforme. Ate que, perto de Boom (sim, a cidade tem esse nome), a rodovia entrou num tunel, a ciclovia acabou, e eu fiquei sem saber o que fazer.

Pus a camisa pra ficar mais apresentavel, dei umas voltas sem achar solucao, dai parei uma senhora holandesa pra pedir instrucoes. Ela so falava holandes; eu apontei a direcao que queria ir e falei "Brussel", ela olhou pra bike, fez cara de quem entendeu e comecou a falar. Devo ja ter passado muito tempo na Holanda, porque, apesar de nao entender o que ela dizia, compreendi que era pra seguir uma rua ate um "viadukt", virar, ir pro "centrum" de Boom, e dali pegar a estrada local pra Bruxelas. Impressionante.

Custei um pouco pra localizar a tal estrada, mas achei. Fui seguindo as placas pra Brussel e, quando vi, tinha caido no meio (ou melhor, no acostamento) da A41. Os caminhoes rugiam ao meu lado, e eu pedalava pateticamente sem saber o que fazer. Felizmente meu sofrimento nao durou muito: em cinco minutos parou uma van da policia rodoviaria, e saltou dela uma dona policia fazendo cara de "bonito, hein?". Eu expliquei pra ela que queria ir pra Bruxelas e estava perdido. Ela retrucou, num ingles sotaqueadissimo, que o que eu estava fazendo nao so era perigoso ("Voce pode morrer em cinco minutos!"), como tambem era muito proibido. Eu fiz minha carinha de cachorrinho coitado e pedi desculpas. A guarda me mandou colocar a bicicleta dentro da van, me levou pela rodovia ate a proxima estrada secundaria que levava ate a capital, e me mandou nao repetir aquilo nunca mais. So dez quilometros mais pra frente que eu me dei conta que devia ter tirado uma foto dentro da van e outra com ela pra registrar o ocorrido. Que falta de presenca de espirito.

Agora na estrada certa e sem correr mais risco de vida, o resto da viagem aconteceu sem maiores incidentes. Em alguns momentos surgiram no chao algumas indicacoes do Caminho de Santiago, o que eu achei surpreendente e comovente ao mesmo tempo (tao longe!). Meio-dia e pouco eu cheguei em Bruxelas.

A cidade e bacana, mas eu achei a Antuerpia mais bonita, mais arborizada. Bruxelas tem uma sensacao mais de business mesmo. Todas as placas sao em frances e em holandes, e as pessoas parecem menos a esmo que na Antuerpia.

Apesar de ter copiado as instrucoes de um site de rotas, e claro que nao eram precisas, e eu tive que pedir informacoes pra um seu pulica. Que nao falava ingles. Mas me atendeu cortesmente em frances, e eu tive que escovar o meu jujuju pra me fazer entender. E nem fiz tao feio. Em meia hora eu estava no albergue, deixei a bagagem la e fui conhecer a cidade.

Existem inumeros monumentos e pracas pra visitar em Bruxelas, uma catedral, e nenhuma couve. Ha varios museus tambem, mas eles nao se incluem na minha programacao. Alem disso, existe uma adoracao por HQ que eu nao esperava: ha varias lojas de quadrinhos, gibi de historia de santo na igreja, uma rota turistica de HQ para se seguir. So faltou uma estatua do Tintin. Assim como na Antuerpia, quando chega o momento de dar as horas, as igrejas fazem verdadeiras sinfonias de sinos antes de dar as tantas badaladas.

A sensacao que ue tenho agora e que o aquecimento acabou. A rota ciclistica nao vai ser mais mastigadinha e super-sinalizada como na Holanda, as pessoas todas nao vao mais falar ingles, e, surpresa!, agora comecou a ter relevo. As coisas devem ficar cada vez mais interessantes.