Ai ai ai, me abunda

Zerei o odometro do velocímetro da bike. Quilometragem pra valer, de agora em diante, a partir do momento em que desci a rampa do navio.

Sol radiante, céu de brigadeiro, como diria Cynthia Miranda. A Holanda estava embrulhada num dia de verão de verdade que nada deveria a um dia de… primavera no Brasil. Sai pedalando em direção ao controle de passaportes do porto, sentindo o cheiro do mar. O tio da imigração provavelmente duvidou um tanto que a figura de óculos escuros e capacete era mesmo aquele semblante que ele via na fotita do passaporte, mas os inúmeros carros, motos, vans, e etc. já começavam a se acumular atrás de mim, então ele carimbou minha entrada no pais sem fazer uma pergunta sequer. Terroristas, anotem.

Uma vez fora do porto, encontrar para onde ir provou-se um desafio maior do que eu esperava, dado que as placas todas diziam chobrong. O mapinha de rotas ciclísticas da Benelux que eu comprei provou-se totalmente imprestável, sua única utilidade sendo que me mostrou que aparentemente Haga ficava mais na direção de Amsterdam do que Rotterdam. Assim, fiquei seguindo as ciclovias a esmo e olhando as plaquinhas, ate descobrir que De Haagen era pra onde eu queria ir, e coloquei toda minha fé que o caminho era pra onde o sinalzinho estava apontando.

Hoek von Holland, onde o navio aportou, aparentemente e uma praia muito popular também. Pelos caminhos que eu passava fui cruzando com centenas de holandeses das mais variadas idades, tão bronzeados que, mais que marrons, estavam já ultravioleta. E bicicletas, bicicletas e mais bicicletas; nos pontos de entrada das praias mais populares, as magrelas se amontoavam, muitas jogadas no chão ou na beira dos barrancos mesmo sem muita preocupação com a posibilidade de não estarem mais la quando o dono voltasse.

Cheguei a pegar algumas entradas erradas, mas o bom-senso descoberto durante o Caminho de Santiago e aprimorado durante um ano e meio me perdendo em Londres fez com que eu sacasse quando o caminho não estava muito certo logo, voltasse e achasse a placa que eu tinha perdido. Em pouco menos de uma hora eu atravessei os campos, barrancos e planuras cheios de vacas e ovelhas e cheguei a Haga, empolgando a 20 km/h. Achei que faria sentido então ir seguindo as placas que apontavam para "Centrum", e que dali provavelmente haveria alguma indicação que me dissesse pra que lado fica Amsterdam.

Haga pareceu ser uma cidade bonita, organizadinha e com alguns pontos interessantes, vistos a distancia. Não pude me demorar nada, pois minha preocupação era chegar em Amsterdam antes que anoitecesse – o que, graças ao verão, so aconteceria por volta das dez da noite, mas, sendo já quase seis, eu não podia enrolar. Chegado ao centro, não encontrei nada que dissesse Amsterdam, mas encontrei um grupinho de Seus Guardas que tiveram a prontidão de me atender. Depois de saber, com certa incredulidade, de que eu pretendia ainda ir pra capital, o guarda poliglota me explicou em inglês que eu deveria ir seguindo as placas para Leiden, e que quando estivesse chegando la eu começaria a encontrar placas que me levariam para Amsterdam.

Depois de um pit-stop para me reabastecer de água e comer uma besteira qualquer, segui caminho nessas planícies sem fim. Esse trecho teve tudo que eu mais gosto quando ando de bicicleta: trechos dentro de parques, cheiros e ruídos que se perdem dentro de um carro, e congestionamentos costurados sem do. Não demorou muito, uma ciclovia levou a outra que levou a outra que levou a uma ciclovia paralela a rodovia que levava a Amsterdam.

Fui seguindo, pedalando e pedalando, sempre em frente. Foi então que as primeiras sensações adversas começaram a bater: as mãos e os braços começam a se incomodar de ficar na mesma posição tanto tempo, e, principalmente, a bunda começa a doer depois de tanto contato com o selim. Entre uma placa e outra, eu ficava experimentando novas maneiras de me apoiar no guidão, sentava mais pra frente, mais pra trás, ia esticando os braços, aproveitava uma descidinha pra botar as pernas pra cima. Na obrigação de levar os ciclistas por caminhos mais seguros, os sinais me fizeram tomar caminhos que davam mais voltas, o que acabou por me fazer demorar mais do que eu esperava.

Por um tempo eu ainda ia cruzando com a população carregando filhos, compras e cargas em suas bicicletas; quando fui me aproximando de Amsterdam (e não havia mais cidadezinhas bucólicas, portanto), as pessoas rarearam. Ficamos so eu, a bike, o asfalto e as 3 malas, contando os pauzinhos da estrada que nos passavam. Consegui chegar em Amsterdam por volta das dez da noite, sol começando a se por.

Foi então que um temor meu se concretizou. Suspeitando que tinha o numero errado do celular do Gui, em cuja casa eu ficaria, mandei um text pra ele, mas nada de resposta. Mais uma vez fui seguindo as placas para o Centrum; atravessei o Vondelpark, um parque lindo e gigantesco, e me achei na Museumplein, onde se agregam vários dos museus de Amsterdam. Nesse ponto, resolvi ligar pra ele mesmo, e descobri que realmente o numero que eu tinha não existia mais.

A desolação bateu forte; eu estava tão cansado, já tendo percorrido noventa e tantos quilômetros, e a súbita possibilidade de não ter mais banho e conversa no fim da noite foi arrasadora. Comecei a ir empurrando o meu castelo pelo centro de Amsterdam so para ir meio que descansando, me movendo de outra maneira que não fosse a bicicleta. Fui reconhecendo os lugares que já tinha visto da outra vez que estive aqui abaixo do nível do mar. Quando cheguei em Koningsplein, sentei num banco da praça, e devia ser tão o retrato do desanimo que uma turista veio me perguntar se estava tudo bem comigo. Fui conversandinho com ela, procurando os meus guias e considerando as ações a tomar, já fazendo as contas para a possibilidade de eu ter que achar um hotel onde passar a noite. No fim das contas, achei que valia mais a pena procurar um cybercafe e rezar para que o Gui estivesse no MSN, levantei e segui rumo, so me dando conta de que não tinha me despedido da turista solicita depois que já tinha virado a esquina.

Foi então que meu anjo da guarda provou-se mais uma vez uma entidade eficientíssima. Cai na Spuistraat, perguntei por um internet place pra um transeunt, e ele me apontou para um café na esquina seguinte. Depois de prender a bike e desmontar as estruturas todas, entrei cheio de bagagem no café, e pedi 15 minutos de internet e uma água. Ficariam 3 euros, eu so tinha 2,70, mas o moco do balcão se compadeceu da minha cara cansada e fez o descontinho. Me conectei no MSN, e la estava Gui, preocupado, já imaginando que algo tinha acontecido de errado e que eu devia surgir no MSN pra contacta-lo. No fim das contas, o numero do celular que eu tinha dele era totalmente errado. Ele me ajudou a me orientar, e, em 15 minutos, nos encontramos na Centraal Station, para então seguir para o apartamento dele. Minha alegria ao encontrar um lar com colchão, comida e chuveiro foi tão grande que eu quase comecei a chorar de emoção. Mas, dado que estava carregando bagagem mais a bicicleta ate o quarto andar, sem elevador (eu que não vou deixar Angelana Paula dando sopa na rua num lugar cheio de ladrões de bicicleta como Amsterdam!), tive que me carregar em levantar peso escada acima e as lagrimas ficaram pra depois.

Um banho, um ravióli de frutos do mar com cha gelado e um sorvete depois, eu já me sentia um ser humano satisfeito novamente. Ficamos eu e Gui colocando o assunto em dia, rodando os canais holandeses, assistindo Friends com legendas nederlandicas e coisas assim. Varias vezes a TV mostrava ciclistas e mais ciclistas correndo pelas estradas. Acho que estão me perseguindo.