Cycle for all

Foi uma situação meio epifânica. Depois de ter levado uma pequena comida do meu querido chefinho na semana anterior porque eu estava chegando muito tarde no jornal, hoje eu resolvi chegar cedíssimo e mostrar como eu já tinha corrigido meus modos atrasados. Fui de bike, como sempre, e estava lá, deixando ela na bike shed que tem na garagem do jornal, quando um outro indivíduo chega com sua bicicleta e tem dificuldade pra encontrar o cartão magnético que abre o portãozinho. Solícito, vou lá abrir pra ele, já que estava do lado, e me ligo que o indivíduo é um editor que já era fodão antes e que recentemente, ao ser promovido, se tornou mais fodão ainda.

Enquanto ele agradecia e encontrava um cantinho pra acorrentar sua magrela, eu parei e fiquei pensando. O editor mega-power… vinha trabalhar de bicicleta que nem eu.

O paralelo com a editora em que eu trabalhava no Brasil veio na hora, e só naquele momento que eu me dei conta das discrepâncias. Lá na Editora, o prédio tem um mega-estacionamento de cinco andares, milhares de vagas, e um estacionamentozinho de bicicletas que só serve de desencargo de consciência, onde cabem no máximo 20. Vinte vagas, que estão em geral vazias; apenas 3 ou 4 bicicletas usam-nas regularmente, e eu lembro de bicicletas que ficavam lá esquecidas meses a fio. Enquanto isso, no jornal, eles não têm um estacionamento próprio de carro que seja, mas têm o cercadinho das bikes, que deve abrigar umas 150 bicicletas, todas as vagas disputadas a tapa. A ponto do povo se organizar para remover as bikes que ficavam lá esquecidas por mais de duas semanas, pra não deixar ninguém que realmente usa sem vaga.

Claro que existem as diferenças práticas e geográficas entre Londres e São Paulo. Londres é uma cidade bem plana, enquanto Sampa é um sobe-desce sem fim. E as distâncias em Sampa são bem maiores. Mesmo assim… acho que o problema é mais de outra ordem. Afinal, todos meus amigos que saíram da casa de pai e mãe fizeram o possível pra encontrar um lugar em que se evitasse as distâncias absurdas e facilitasse seu dia-a-dia.

No fundo, um carro no Brasil é basicamente um símbolo de status. Um objeto de desejo tão forte que faz as pessoas acharem perfeitamente razoável entrarem em prestações a perder de vista, torrarem dinheiro com combustível (além de poluírem o ambiente), e ainda arcar com estacionamento, pedágio, IPVA, seguro… e academia. E ainda por cima dar sua forcinha para piorar os congestionamentos. Some-se a isso o choro e ranger de dentes quando roubam o carro, ou o som, ou riscam o veículo.

Meses atrás li num jornal online que iam fazer uma ciclovia paralela às marginais, entre a avenida e o rio. Nunca mais fiquei sabendo de nada a respeito, mas espero que se torne realidade (assim como a minha querida linha amarela do metrô finalmente está saindo do papel). Porque ela será muito útil. E espero que seja apenas o começo – Sampa vai precisar começar a prover alternativas pros automóveis logo. Principalmente pra quando resolverem instaurar o pedágio nas áreas mais congestionadas. Porque, é fatal, isso vai acontecer. Aqui em Londres são doze libras – POR DIA – pra você entrar com seu carro no centro. Eu não tenho dúvida que, num país que tem coisas como CPMF, não vai demorar muito pra adotarem uma medida como essa que não só vai diminuir o trânsito, como também vai trazer mais renda pros cofres públicos.

O triste é que, do jeito que as coisas vão, esse dinheiro não vai ser usado para fazer ciclovias, corredores de ônibus, frota nova, metrô, etc. Nem uma campanha que torne o transporte público ou pedalar mais fashionable. Andar de carro vai continuar a ser o modo bacanudo de ser, as pessoas vão ter mais do que reclamar, a administração pública vai ficar mais rica, e só.