Existe uma triste regra no mundo das comunicações, mas que infelizmente é infalível. Quer vender algo, coloque uma mulher branca e bonita pra vender. Não adianta querer ser politicamente correto, revolucionário, etc. Na hora de fazer as contas, o que vai dar mais lucro é aquilo que a Malu Mader está vendendo, não o que a Valéria Valenssa empurra.
Pode ver as capas de revista. Só se encontra uma negona sacudida na capa da Raça. Mesmo as mulé que não são assim arianas são aceitas apenas se forem disfarçáveis como brancas – tipo Camila Pitanga, Juliana Paes. A Playboy coloca qualquer BBBéia na capa, mas não paga milhões pras atrizes "afrodescendentes" que surgem nas novelas agora. Nem milhinhos. Diz a lenda que a capa com a Isabel Fillardis foi um fiasco, por mais linda e popozuda que ela era.
Marcel me contava as histórias do irmão dele, que trabalha na Lever. Eles até tentam inovar, fazer coisas novas, mas não passa do teste com as usuárias; elas não conseguem admitir uma mina com um ou dois pés na senzala vendendo Lux Luxo. Também não compreendem propagandas surreais, ou que exijam mais raciocínio, mas demoram a captar isso; a negritude, no entanto, é repelida imediatamente, e sem que elas sequer se dêem conta do que estão fazendo.
No fim do mês passado, quando estava fechando a edição de fevereiro da Jungle, eu fiz um desafio pro chefinho Juliano: a gente tem que colocar uma mulher branca e bonita na capa.
Talvez porque é uma revista distribuída gratuitamente, talvez porque esteja na Inglaterra. Mas provavelmente porque as pautas que os editores acham que tem a ver com a revista são socialmente conscientes e nos levam a isso. O fato é que, nesse ano que eu sou diretor de arte da Jungle, das onze capas que eu fiz, nada menos que cinco (Seu Jorge, Gilberto Gil, Robinho, Funk Carioca e, agora, Afroreggae) são de homens, e,ainda pior, negros! Ou seja, exatamente o contrário do que se recomenda. O mais perto que chegamos de uma mulher branca e bonita na capa foi na edição do Brasil na França, que eu coloquei um desenho de uma mulher belle époque na capa.
Eu comecei a campanha pela mulher branca e bonita na capa mais de brincadeira, porque achei amusing quando me dei conta da acumulação de melanina nas capas da Jungle. Depois que levantei a questão, descobri que os distribuidores tinham a mesma opinião. Essa semana, uma cliente disse que não queria distribuir a revista em sua loja. Que a gente só passava uma idéia de um Brasil pobre, colocando esse monte de preto na capa, e que o Brasil que ela vende é um Brasil bonito, nada dessas misérias que a gente divulga.
É tão triste quando a gente descobre que as regras silenciosas da Abril estão certas, no fim das contas.