Cleaning

Quando eu fazia engenharia da computação, a única matéria de humanas que a gente tinha, no primeiro semestre, colocada lá por desencargo de consciência, era antropologia. Nela, nós basicamente aprendíamos que todas as culturas são legais e que é muito feio julgar uma cultura diferente baseando-se nos padrões de normalidade de sua própria cultura.

Isso, é claro, é muito lindo de se dizer, mas colocar em prática já são outros quinhentos. Se não fosse assim, não seria nosso assunto preferido na JD reclamar de uma das maiores faltas dos europeus, em nosso ponto de vista: a limpeza.

Nosso lema aqui é: "Por que começar? Pra que que você foi fazer isso?". Explica-se. Um belo dia, meses atrás, quando tinha acabado de me mudar pra casa onde estou morando, reparei que o fogão estava grosso de gordura, e achei que aquilo era uma vergonha. Então, apesar de nunca ter usado o fogão, peguei uma bucha, comprei um limpa-tudo dos mais fortes, e me pus a trabalhar naquele fogão. Deixei ele limpo que era uma beleza; ao fim do processo, achei por bem lavar o chão também; lavando o chão, vi que ninguém nunca tinha lavado debaixo dos armários da cozinha, muito menos entre o fogão e a geladeira; vendo isso, reparei que a porta da cozinha nunca tinha visto uma limpeza…

E assim vai. Todas as sujeiradas que você faz vista grossa no dia-a-dia saltam pra sua fuça se você começa a prestar atenção como se deve, então é uma besteira começar a acertar a limpeza caseira. Inda mais em se tratando de uma casa compartilhada com mais três europeus, que não sentem a minha necessidade de limpeza, e, apesar de acharem tudo muito lindo, não fazem esforço pra manterem as coisas como nós terceiro-mundistas achamos que elas devem ser.

Mas, como tudo tem limite, certas vezes é inevitável. E foi assim que eu me conformei a ser o guardião do banheiro. Não dos dois da casa, apenas do que eu uso.

Quando cheguei, não conseguia-se ver através do boxe do banheiro, apesar dele ser de vidro transparente. Anos e anos de espuma de tantos ocupantes que por ali passaram haviam se acumulado sem restrições, o que o havia tornado branco. MESMO. Achei que isso era um absurdo, então comprei um limpa-banheiros potente e comecei a esfregar o boxe. Horas depois, lá estava ele lá, transparente, provavelmente pela primeira vez desde que foi instalado. Então olhei para os azulejos, e reparei que o laranja do rejunte na verdade era mofo ou algo assim. Comecei a esfregar os azulejos e a sujeira começou a escorrer.

Nas vezes seguintes, olhando com atenção, percebi que ninguém nunca tinha passado um pano nas paredes, que tinham teias de aranha na quina com o teto. Atrás e debaixo do vaso sanitário, então, nem se fala. A água aqui é cheia de minerais, que vão se acumulando conforme a água pinga, e na pia, no boxe e em tudo mais os sedimentos já se empilhavam em três ou quatro eras geológicas. Quando você termina isso, percebe que os cantinhos do boxe e atrás das dobradiças da porta dele está tudo grosso de bolor. E assim vai.

Para ajudar, o único ralo existente no banheiro é o do boxe, que fica quinze centímetros acima do chão. Exatamente. Quase causei um dilúvio na primeira vez que fui lavar o banheiro da maneira que estava acostumado. O hemisfério norte tem um conceito de que o esfregão dá conta de limpar tudo que deixaria qualquer dona-de-casa ou diarista subdesenvolvida de cabelo em pé. Sinceramente, um banheiro que não tem um ralo no chão não foi feito pra ser limpo decentemente.

A parte diária da luta higiênica no banheiro é o combate aos cabelos. Porque minha mãe, minha irmã, e toda menina de boa educação tupiniquim sabe que, depois de se tomar banho, o mínimo que se deve fazer é retirar os cabelos do ralo. Infelizmente, a educação européia tem outra opinião. Assim, as minhas housemates tomam banho e deixam bolos de suas lindas melenas no ralo; o (a) seguinte ia lá, a água não descia, e, decidido a não limpar cabelo que não lhe pertencia, tirava a tampinha do ralo, já totalmente obstruída por detritos capilares. Obviamente, os cabelos dessa pessoa então descem ralo abaixo, entupindo o único ralo do banheiro, e assim todos ficam controlando o dilúvio do banho até alguém dar um jeito de desentupir aquilo.

Depois de um tempo, resolvi me resignar a remover os cabelos do ralo antes de tomar meu banho. E, assim, agora, deixo uma bucha no lado da privada, a qual utilizo todas as manhãs para remover os cabelos dos habitantes que se banharam no dia anterior. E, nessas, caí de novo numa armadilha involuntária. Um dia, por exemplo, depois de lavar o banheiro, fui jogar a água suja do balde no ralo da banheira do outro banheiro, e, quando a água baixou, vi que estava cheio de cabelo nesse ralo. Pensei eu, "poxa, enchi de cabelo o ralo da banheira, melhor tirar". E comecei a puxar. Obviamente, comecei a puxar dez anos de cabelos que tinham parado lá. Precisei de palitos e escovas pra terminar o serviço.

Essa luta acontece diariamente, entre vários brasileiros que habitam aqui. Portanto, leitores, tomem cuidado quando afirmam que estão dando uma educação européia a seus filhos; especifiquem bem o que é isso, para não acabarem com bolas de lodo no seu WC.

One Response to “Cleaning”

  1. Carla

    Morei em Lisboa por alguns meses,nada legal..Costumes diferentes.Realmente essa estória de limpeza é complicada.
    Depois em Varsóvia,muito difícil também.Sofri por ser maníaca da limpeza.

    Ótimo post.

    Abraços