Vida de Cão

Tenho quase certeza de que, de tantos posts que eu já fiz aqui no Chão, nenhum deles jamais foi escrito às nove da manhã. As chances de eu ter feito isso logo depois de ter acordado, caminhado, arrumado a cama, feito supermercado e tomado café da manhã, então, são certamente zero.

A razão para isso é um lindo quadrúpede de porte pequeno e pêlo longo que agora mora comigo. Sim, eu finalmente adotei um cãozinho!

Eu já estava com essa idéia desde que eu voltei de Londres, mas todo o processo de me reestabelecer em Sampa ocupou todo meu tempo e dinheiro. Agora, meses depois, apesar do dinheiro não estar sobrando, o tempo está um pouco mais organizado, e eu resolvi que poderia encarar a responsabilidade. Comecei a procurar filhotinhos em sites de adoção de cães, procurando um que eu sentisse que tem a minha cara e viesse de São Paulo.

Depois de algumas semanas, eu encontrei um, fui visitá-lo na clínica onde estava, e achei-o a coisa mais linda. Era quarta-feira, e eu pedi para buscá-lo no sábado. Tudo tinha ficado acertado, mas, quando eu liguei na sexta para descobrir como ele estava, descobri que já tinha sido adotado por outra família. Fiquei bem bem bem puto da vida com isso, mas a protetora que tinha passado o quase-meu cãozinho pra frente me prometeu que me arranjaria um canino ou mudava de nome.

Bem, duas semanas depois, fui encontrá-la no Butantã, para ver os cães que ela estava abrigando no momento. Chegamos à casa de uma amiga dela que mal parecia poder sustentar ela mesma, menos ainda dezenas de cães;, mas, mesmo assim, em dez minutos chegou outra amiga (“Somos todas vegetarianas!”, ela dizia, empolgada) com seis cachorros que ela tinha levado pra passear.

Eram todos fêmeas, com a excessão de um, o mais lindo de todos. Tinha sido recolhido da rua, onde tinha sido abandonado, junto com uma outra cadelinha, sua amiga inseparável. Olhei bem pra ele, brinquei com todos um pouco, e resolvi que era aquele mesmo. A mulher não queria deixar, porque achava que ele não conseguiria viver longe da cãzinha. “Já que você vai adotar um, por que não adota os dois de uma vez??”, uma delas tentou me convencer, mas resisti à pressão vegetariana. Depois de alguns minutos de negociação, resolvemos que eu o pegaria para fazer um teste se ele conseguia viver longe da outra. Elas me deram uma carona para casa, e, no caminho, decidiram que catariam dois outros cães que tinham encontrado no dia anterior… Deve ser missão mesmo.

Uma vez com o cão em casa, enquanto eu pensava em que nome eu lhe daria, eu fui com ele na Cobasi comprar os suprimentos necessários. Muito emocionante – emocionante demais; o cão ficou apavorado, pobrezinho. Continuei tentando brincar com ele, animá-lo, deixá-lo contente com o prospecto de que tinha deixado de ser um menor abandonado, mas nada o alegrava.

Segunda-feira foi o primeiro dia que eu o deixei sozinho em casa enquanto eu trabalhava. Cheguei à noite, e descobri que ele tinha mascado os fios da TV a cabo. Estava mais jururu ainda. De madrugada, eu fui despertado com ele arranhando a porta. Ele tentou sair de casa, mas não conseguiu; foi prum canto da sala e começou a vomitar. Daí foi para a cozinha e começou a cagar sangue. Depois vomitou mais. Depois cagou mais sangue. Eu limpando os fluidos do meuu cão e ele, miserável, soltando mais. Depois de uns quarenta minutos disso, ele parou, e eu pude voltar a dormir.

Na manhã seguinte ele estava mais melancólico do que nunca. Preocupado com o que poderia ter acontecido com um ser que tinha acabado de roer fio uma tarde inteira, levei-o para o veterinário, paguei um ultrassom pra ele, exame de sangue, exame de fezes… E assim descobri que na verdade tanta melancolia não se devia a um amor desfeito, mas a vermes mesmo.

Agora já faz uma semana e pouco desde que eu o acolhi. Ele está muito mais saudável, me segue por todos os cantos, morre de alegria quando eu chego, e me vê como uma maquininha de fazer cafuné. Me acorda todos os dias assim que raia o dia, e só come o que quer. O que é um problema, já que eu tenho que dar remédio para ele por mais quatro dias, o que significa um embate de manhá e à noite para que ele tome os comprimidos receitados pelo veterinário.

Mas decididamente está valendo a pena. Assim que ele sacar que bolinhas servem para ele brincar e tals, a gente vai conseguir se divertir mais ainda. Nesse meio-tempo, passeio com ele com orgulho; é impressionante como as pessoas reparam mais em você quando você passeia com um cãozinho lindo a seu lado.