Eu lembro de quando eu era muito pequeno, devia ter uns três ou quatro anos. A gente estava na casa da vó Maria, antes de todas as reformas, eu em cima daquela mesa enorme improvisada sobre cavaletes que ainda duraria mais quinze anos, vendo meu pai e vô Dico cantando as músicas caipiras que eles ainda cantariam por mais onze ou doze primaveras. Lembro de achar elas todas meio chatas, e já estava começando a perceber que eram sempre as mesmas. A ponto de já estar decorando as letras, mas não queria cantar junto (por mais que tivesse vontade) porque vai que achavam que eu estava gostando?
Foi quando eu comecei a reparar também que o vô cantava diferente do pai; depois fui descobrir que ele fazia a segunda voz. Quando eles pararam, eu fui perguntar pro pai por que que eles cantavam aquelas músicas – com tanta música mais legal, afinal, por que justo aquelas? O pai respondeu que aquelas eram as músicas que o vô gostava, que quando ele era mais novo ele também não gostava delas, mas que depois passou a gostar pra cantar com o vô.
Eles continuaram cantando até que o Vô Dico morreu, quando eu estava nos Estados Unidos. Eu não estava no enterro, mas sei que o pai não chorou, mas quando estavam levando o caixão pra sepultura, ele puxou a música que o vô queria que cantassem no enterro dele, pra todos os irmãos cantarem junto.
Meu pai é assim. Nunca vi ele chorando. Ele sempre foi um cara contido, na dele. Meio que a força silenciosa lá em casa. Mãinha sempre ocupou os espaços de quem faz e acontece; Pai sempre estava lá, aquele que acordava cedo pra trabalhar em outra cidade, voltava pra janta, acordava a gente cedo pra levar pra escola quando a gente passou da quinta série, com quem eu e Danilo passamos a ouvir as notícias do rádio no carro de manhã. A presença perene, forte o suficiente para que jamais me cruzasse o pensamento a idéia de que ele pudesse falhar ou não estar lá, seguro no seu papel a ponto de não precisar se fazer aparecer.
Pai foi quem tentou me ensinar a xingar quando eu estava na quarta série; quem me fez querer aprender a tocar violão na sétima; quem tentou me ensinar violão na oitava. Me ensinou também a respeitar o pessoal que ele empregou e com quem eu trabalhei na fábrica de plástico antes de ir pro Cotuca, e antes do vestibular me deu aulas e mais aulas de física e matemática. Quantas vezes ele acordou de noite pra me buscar na casa de amigos, e depois pacientemente me ensinava a dirigir no caminho de volta?
Mas, além dessas coisas (nem tão) pequenas, ele me ensinou, muito, pelo exemplo. De todo dia ir trabalhar, faça chuva ou faça sol; de, quando está sem emprego, não ficar se lamentando mas ir buscar trabalho, ou tentar um empreendimento, mas nunca se achar "de férias"; de ter confiança na sua dignidade, não se sentir humilhado pelos períodos em que Mãinha era a única que punha dinheiro na casa. Teve um período em que ele foi morar em Goiás, ficava tanto tempo longe da gente, mal posso imaginar como era pra ele ficar sozinho lá no meio do nada. Nunca fiquei sabendo de um trambique que ele tenha feito, de ele ter passado a perna em alguém ou começado uma intriga. Eu continuo querendo ser que nem ele quando eu crescer.
De todos os meus irmãos, eu tive uma oportunidade única. Seis meses depois que eu fui morar em São Paulo, quando a gente tinha acabado de alugar o apartamento, Pai arranjou um emprego em Sampa. Eu não tinha arranjado quem rachasse o apartamento comigo ainda, Pai sempre quis ter onde ficar em Sampa pra não ter que viajar todo dia, e resolveu que ia morar comigo. Eu fiquei tão revoltado de ver meus planos de morar totalmente longe de pai e mãe frustrados assim, que fiquei semanas fazendo cara feia, o que de nada adiantou. Ele continuou lá, impávido, e me venceu pelo cansaço.
Com o tempo, a nossa parceria se desenvolveu, e eu comecei a curtir chegar à noite e encontrá-lo de chinelo na sala, tomando uma cerveja (ou chá de gengibre, nos períodos que ele resolve dar uma pausa na cerva). Eu ficava treinando teclado no meu quarto enquanto ele praticava o violão no quarto dele, brincando com as baterias eletrônicas e sua parafernália de som. O ritual de tomar leite com nescafé enquanto a gente assistia Bom Dia Brasil antes dele ir trabalhar surgiu rápido; a caminho da fábrica, ele me deixava na USP. Depois que eu descobri que ele não gostava de bolacha recheada, comecei a comprar a bolacha de leite e mel que ele gostava. Só me recusei a comprar miojo pra ele – o que não o impediu de continuar comendo isso de janta, sempre socando o macarrão antes de cozinhar, pra não ter aqueles macarrões gigantes.
Sem falar das idas e vindas entre Sampa e Campinas com ele, sempre mais em conta e mais confortáveis que ir de ônibus. Quantas vezes eu pude dormir tranquilo, na segurança de que pai estava ao volante (como em todas as viagens, aliás – uma das minhas primeiras lembranças é a gente, a caminho de Nova Viçosa, parado antes de uma ponte de madeira, e ele andando pela ponte e dando uns pulinhos, pra se certificar que ela ia aguentar o carro)? Chega a ser quase um abuso.
Com o passar do tempo, ele começou a ouvir os discos que eu comprava, no caminho da USP, assim como eu ouvia as fitas dele quando era menor; a gente foi assistindo TV junto, e ele até assistiu vários episódios de Star Trek: Voyager comigo. A gente morou quatro anos juntos, nunca brigamos por conta de convivência… não tem muita gente que pode dizer que teve esse tipo de relação com os colegas de apartamento durante a faculdade.
De conversa em conversa, pai acabou virando meu guru profissional. Na primeira entrevista que eu fiz na vida, com a editora da Caras, ele que sugeriu a pergunta que ela achou mais inteligente de todas; assim que comecei a minha escalada trabalhista, pai me mostrou como montava currículo, como agir em entrevistas. A gente foi planejando os passos da minha carreira, pra onde que eu devia ir, onde se arriscar. Fomos discutindo relações com chefes, atitudes dos colegas, e ele sempre me apontou a melhor maneira de agir nas situações espinhosas que surgiam.
Eu já tive muita invejinha do elo que pai tem com o Anselmo; o jeito que os dois são corinthianíssimos, assistem jogos juntos, transformam os almoços na gazeta esportiva. Nem lembro quando surgiu minha performance de “Garçon”, do Reginaldo Rossi, com ele, mas peguei orgulho dela. A ponto de ficar injuriado quando algum dos meus irmãos se enfia no microfone pra cantar junto. Esse é o meu momento com pai, eles que não venham se meter nisso.
O pai me apresentou ao Fantasma e ao Mandrake; traduziu músicas do inglês pra mim quando meu inglês era pífio; me levou pro show da Alanis Morissette em Sampa quando eu morava em Camps, mesmo sem nunca ter visto ela mais gorda antes; já armou tantas estantes pra gente que já perdi a conta; adaptou todos os contos de fadas em versões muito mais interessantes que me contava antes de dormir; me ensinou a jogar truco e tantas outras coisas que não caberiam nesse site inteiro.
O pai não consegue encostar nos pés dele nem que a vida dele dependa disso; é de onde vêm minhas unhas encravadas e meus cabelos brancos; não consegue acertar a métrica das panaméricas de Áfricas utópicas em “Sampa”, mesmo depois de anos de prática; ele coloca bombril na ponta da antena, dorme assistindo televisão, mas não deixa mudar o canal; só assiste filme preto-e-branco; deixa um estilingue do lado da cama pra assustar o ladrão, e tem plena confiança nos golpes de kung-fu que não sabe caso um entre em casa; não vende a caminhonete Matilde nem que entreguem o peso dela em ouro.
Ele também não consegue fazer segunda voz nas músicas, apesar de estar praticando. Eu também não consigo (o Anselmo consegue com uma facilidade desconcertante). Mas aprendi a gostar das músicas que ele gosta. Ele é o pai que eu amo, e eu sinto muita falta de cantar com ele, e de fazer todas as coisas que eu contei. Mas nosso hit parade está longe de terminar, e a gente ainda vai descolar vários sucessos juntos.