Police

Acho que a reação é a mesma para todos. Eu sempre tive medo de polícia. Não que eu tenha atos condenáveis que pudessem me colocar em cana – tirando uns sonhos de valsa que eu roubei quando era criança e uns gibis e revistas que eu roubei na pré-adolescência, minha lista de delitos é inexistente. Mas a gente nunca se sente seguro perto de polícia. Se eles estão por perto é porque tem encrenca, e se te pararem, alguma merda vai acontecer.

Talvez por causa daquele versinho da "London, London" (a woman goes to a policeman / and he seems so pleased to please her), a gente tenha a ilusão de que eles são muito mais afáveis. Santa ilusão. Sim, eles parecem ser mais bem equipados que os puliças brasileiros, e devem receber salários melhores, mas ainda assim a premissa básica de que são precursores de problemas continua.

Meu primeiro contato com os officers aqui na ilha foi há uns dois meses. Estava eu voltando pra casa por volta das duas e meia da manhã, quando um camburão se parelha com a Angelina Norma, e faz sinal pra eu parar. Demorou um pouco pra eu sacar que era comigo, mas, quando vi que eu era a vítima mesmo, encostei a bike. O guarda sai do camburão, me pergunta se eu sabia o que tinha feito, e eu disse que não, e ele começa a falar, muito revoltado, que tinha me visto atravessar o sinal vermelho no cruzamento anterior. Que as leis de trânsito valiam para todos, e não era só porque eu andava de bicicleta que eu podia achar que as leis não se aplicavam à minha pessoa. Eu disse que estava tarde e que não tinha parado com medo de ser assaltado. Ele disse que não vinha ao caso, que já tinha cansado de ver ciclistas atropelados por ônibus, que ia deixar passar daquela vez, mas que na próxima ia me multar, e que eu ficasse esperto, porque ele estava sempre naquela área e ia estar me vigiando. Achei melhor e mais fácil concordar com tudo o que ele dizia e afirmar que ele tinha toda a razão. O que, senti eu, decepcionou um pouco o guarda, que me parecia estar torcendo pra eu responder atravessado pra ele, pra ele me enfiar no camburão.

Depois disso, volta e meia, quando vou pra Leicester Square, um policial me pega andando de bicicleta no calçadão (fazer o que, o estacionamento de magrelas fica no meio da praça, e ficar empurrando a bici na mão é mó mala), e me manda descer e ir empurrando. Mesmo que você esteja a dez metros da saída da praça. "Rules are rules", dizem eles.

Nunca ouvi tanta sirene quanto aqui em Londres. Tenho a impressão de que os policiais e ambulâncias curtem o som por si só, e que em metade das vezes a utilizam só pra chegar mais rápido em casa.

Mas, de qualquer maneira, mês passado eu pude atestar a eficiência policial britânica. Era outra madrugada em que este espírito notívago estava retornando ao lar. Estava eu parado no sinal vermelho (é, as ameaças do seu puliça funcionaram) quando ouço umas batidas. Olho pra direita, e tem três caras assaltando uma loja: um numa moto, outro com um martelo, quebrando a vitrine, e um terceiro com um saco, em que os dois últimos jogaram os aparelhos que estavam expostos na vitrine. Em dois minutos quebraram o vidro, pegaram a mercadoria e se mandaram, os três, na moto. As pessoas passavam por eles e não faziam nada. Eu não olhei muito fixo, com medo de que algum deles me identificasse como testemunha em potencial, puxasse uma arma e eliminasse o fator de risco. Depos que se foram, ninguém fazia nada ainda, não tive dúvidas: fui pra um orelhão e disquei 999 (o número de emergência daqui), que eu sempre quis usar e nunca tive motivo.

A telefonista atendeu, e eu disse que tinha acabado de presenciar um furto na High Holborn Street. Ela me perguntou em que direção eles tinham partido, e eu fiquei sem saber o que responder, querendo evitar o clássico diálogo "Pra direita, Qual direita, a minha ou a sua?". Daí ela me deu uma mãozinha, dizendo "Pro lado da estação de Holborn ou da estação de Chancery Lane?", "Chancery Lane", disse eu. Daí ela disse pra eu ficar onde estava e esperar a polícia chegar.

Enquanto esperava, fiquei imaginando o que aconteceria se fosse o mesmo tio que tinha me dado a bronca no outro dia que vinha cuidar do caso. Mas felizmente isso não aconteceu. Vieram três carros de polícia, de várias direções (eles preferem pecar pelo excesso, aparentemente), e um guarda foi lá resolver o pepino. Achou o martelo que tinha sido usado pra quebrar a vitrine jogado no chão e o guardou num saquinho pra ver as digitais, que nem nos filmes. Ele parecia sinceramente admirado de que eu tinha me dado o trabalho de ligar pra polícia. Depois ficou me interrogando, educadamente, perguntando como, quando, quantos, o que estavam vestindo, de que cor eram, etc. Me senti um inútil por não ter registrado muitas informações, mas ele disse que tudo bem. Mesmo assim, me segurou lá por meia hora, repetindo algumas perguntas, sem que eu pudesse ajudá-lo muito. No fim, ele me perguntou se eu conseguiria reconhecer os criminosos, e eu disse que não. Pegou meu número de celular, just in case, e me deixou ir.

Agora, toda vez que passo na frente da loja (não consertaram a vitrine ainda, tem um tapume tapando o buraco) me sinto estranhamente orgulhoso, como se fosse o responsável. Mas, sinceramente, espero não me tornar mais parte do arquivo de polícia.