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Terça-feira é o dia em que o restaurante atrás do qual a gente acampou tira folga. Ou seja: você já passou a noite num restaurante de beira de estrada no meio do nada, e na manhã seguinte não tem um lugar próximo pra comer que seja. A gente já sabia e estava preparado, eu com uma garrafa de café com leite do Starbucks e um pacote de biscoitos, Lewis com seu fogãozinho pra preparar um mingau de aveia. Mas existe um nível maior de conforto em comer e esperar o tempo esquentar num lugar fechado, com alguém jogando litros de café aguado na sua caneca, do que tiritando de frio numa mesa de camping.
Sem nenhuma distração que servisse de desculpa para enrolar na matina, saímos de Austin Junction bem cedo, encapotados e, no meu caso, friorento. Passamos pela montanha final da sequência logo na primeira hora, e daí veio uma longa descida e o resto do dia em terreno razoavelmente plano, ou seja, foi um dia com alegria no começo e muitos quilômetros burocráticos em seguida. O maior ponto de interesse no dia foi um vagão gigante na beira da estrada, celebrando os pioneiros que desbravaram o oeste nos séculos anteriores. Lewis não se abalou em parar pra tirar uma foto, mas meu lado turista não resistiu ao vagão de Itu.
Paramos para almoçar num Pizza Hut, com fome o suficiente para comer uma pizza inteira. Logo depois de fazermos o pedido, uma mulher com o uniforme da Fedex veio falar com a gente. “Eu queria dar os parabéns pra vocês!”, ela disse. “Eu faço entregas aqui na região, e faz três dias que eu passo por vocês na estrada. Vi as bicicletas de vocês na entrada e me senti no dever de dizer o quanto eu admiro vocês!”. Inesperado, mas bacana. Depois da gente apresentar o jogralzinho de sempre, ela voltou para as entregas dela, e nós nos dedicamos à pizza.
O dia terminou em Dayville, uma cidadezinha que não tem um restaurante que seja, mas cuja igreja presbiteriana deixa os ciclistas passarem a noite em seu edifício de graça. As portas todas abertas pra quem quisesse entrar, que linda que é a vida em lugares sem crime. Entre pôsteres de salmos, versículos do Coríntios I (vai Legião!) e outras mensagens evangelizadoras encontramos os telefones dos responsáveis, pedindo pra quem fosse ficar lá ligar avisando que ia ocupar o quase-albergue. Ligamos, uma tia gorda veio nos receber, e contou a história do lugar pra gente: uma outra velhinha, vinte anos atrás, fez um ato de caridade para um motoqueiro que não tinha onde ficar, e o deixou usar o salão social da igreja para passar a noite. Depois desse evento transformador, eles resolveram liberar o salão para todos outros motoqueiros passantes, e de quebra para ciclistas. Com as doações dos visitantes eles colocaram internet, chuveiro quente e outras melhorias na igreja.
Pouco depois que ela saiu um outro cara surgiu do nada, mas sem a intenção de dormir na igreja: ele estava caçando há algumas semanas nos arredores, e passava na igreja a cada três dias para tomar banho. Jamais compreenderei essas pessoas que se sujeitam a ficar dias sem tomar banho, ainda mais quando praticam atividades que podem te deixar cheirando a tripa dias seguidos. Mas enfim. Ele era um desses sujeitos falantes, ficou muito animado com dois estrangeiros em sua presença, e me disse que em suas muitas viagens pela Europa tinha aprendido a falar espanhol, francês e italiano, mas não conseguia aprender português por nada no mundo, seja lá por que. O que me faz supor que ele na verdade é um loroteiro, porque alguém que domina espanhol, francês e italiano não pode possivelmente ter bloqueios com a nossa flor do Lácio. Mas enfim.
Eu sabia que devia aproveitar tanta internet grátis para atualizar o blog. Sabia mesmo. Mas faltava vontade. O lado esquisito de estar assim tão perto do final é que você não tem mais dúvidas de que vai completar a viagem. A vontade que dá é de apertar o botão fast-forward e pular logo pro final. O que não é possível, então achei melhor concentrar meus esforços mentais em completar os últimos dias de pedal. Vou ter tempo de sobra para escrever retroativamente depois de alcançar o Pacífico.



