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RESPOSTAS MAL-EDUCADAS PARA PERGUNTAS INOCENTES
Vocês são ciclistas?
Não, eu só gosto de vestir bermudinha de lycra mesmo, acho sexy.Vocês pegaram tempo ruim durante a viagem?
Não, fiz um consórcio com o Cacique Cobra-Coral que garante tempo lindo ao meu redor por três meses, quer um cartão?O que você faz se fura o pneu?
Deito na estrada e choro, na esperança de que um caminhão passe por cima e acabe com meu sofrimento.Isso no seu capacete é uma câmera?
Na verdade é aquela máquina do MIB que apaga as memórias das pessoas. 3, 2, 1…
Hoje é um dos raros feriados dos EUA, o Labor Day. Se eu já não tinha muita simpatia por feriados por só atrapalharem minha vida de produção editorial, aqui ele também não fez muito para ajudar a gostar do conceito de dia off. Segunda-feira, Lewis precisando comprar câmaras novas para sua bicicleta, e nenhuma bicicletaria aberta na cidade por conta do feriado. Para sua sorte, Mitch, nosso anfitrião da noite anterior, tinha uma câmera (remendada) para emprestar, e assim meu coleguinha resolveu temporariamente seu problema o suficiente para seguir jornada.
Até a gente voltar do restaurante na noite anterior, tomar banho e virar gente, nossos hosts já tinham ido dormir, então só conseguimos conversar com eles essa manhã. Kathy e Mitch já têm seus cinquenta e tantos anos, duas filhas que estão estudando longe, e dois labradores lindos e simpáticos, Armani e Denim. Na verdade os dois tinham sido criados para serem cães-guia, mas ao longo do extenso processo de treinamento foram reprovados para a função, um por ter alergias e outro por ser distraído demais. Não entendi em bem que parte do treinamento dos cães meus hosts entram, mas deu pra sacar que eles já tinham ajudado a preparar vários, e acabaram pegando para criar os repetentes.
Depois de um café da manhã gigante e saboroso, com ovos, pão de abobrinha, frutas, mingau de aveia e torradas, Lewis foi terminar de remendar suas câmaras, e eu fui escrever no blog. Depois de uma hora, eu fui ver como estava, e ele tinha resolvido aproveitar o espaço na garagem do Mitch pra consertar mais uma câmara e assim não precisar usar a que eu tinha dado pra ele no dia anterior. Como o processo ainda ia longe, me aprontei, encarapitei toda a bagagem em Angelana Paula, tirei uma foto com Mitch e os cães, me despedi de Lewis e lá me fui.
A intenção dessa parte final de viagem é não sofrer mais do que precisa, então dividimos o que resta de estrada em etapas com o mínimo possível de subidas. O dia de hoje teria duas de uma sequência de três subidas médias, o que estava de bom tamanho. O único problema é que também não tem nada no caminho. Então tive que ir procurar um supermercado pra comprar algo pra comer no caminho, e achei por bem almoçar antes de partir. Tudo questão de bom-senso, mas acabou me fazendo só sair de Baker City à uma da tarde.
O caminho seguiu sem drama. A sensação que dá é que estou meio condenado a seguir até o fim, agora. Não há maneira nenhuma que eu vou desistir a essa altura; capaz de eu ir pulando numa perna só se eu quebrar os dois braços e a outra perna. Mais seriamente, apesar de já não aguentar mais pedalar montanha acima, eu pedalo, porque assim que ultrapassar as montanhas do dia estarei um dia mais perto do fim. Cada vez que vejo no mapa que tem mais um pico de cinco mil e tantos pés na rota, me pergunto quando é que a gente vai chegar no maldito nível do mar, ó cáspita, ou será que no fim de mais uma ladeira de dois mil e tantos pés vai ter um precipício com o mar lááááá embaixo? Daí eu lembro que é quase isso que acontece no Rio, e volto a pedalar.
O dia se encerrou num restaurante de beira de estrada que oferece chuveiro e espaço para acampar aos ciclistas. Cheguei seis e pouco, e, como já suspeitava que aconteceria por conta do meu almoço, Lewis tinha chegado antes. Mas não muito antes. Como o restaurante e o chuveiro fechavam às oito, tive que correr pra conseguir jantar, comprar o café da manhã do dia seguinte, colocar a vida internética em dia e tomar banho. Acabei só conseguindo armar a barraca quando já estava breu total (valeu pela lanterna de cabeça, Louis!). Sem uma tomada por perto sequer, só me restou deitar na barraca que já começava a virar frigorífico, entrar no casulo quentinho do meu saco de dormir ainda com a lanterna na testa, e ler meu Kindle com os contos da Annie Proulx. O peão de boiadeiro do Wyoming estava quicando de um lado pro outro no lombo do touro de rodeio, com o braço preso na correia virando paçoca, quando eu desmaiei de sono.



