GOPR1871

Pneus com vazios interiores


View Larger Map
Acampamento no quintal

Minha barraca e a do Lewis, no quintal de Tom e Linda

Cheguei à conclusão de que sou um colega de viagem muito, mas muito bacana.

Lá nos idos tempos do Kansas, entre planuras e ventanias, os pneus da bicicleta do Lewis furaram algumas vezes. Na terceira vez que fiquei segurando a bike dele pra ele terminar de trocar a câmara, eu disse que ele devia comprar câmaras novas quando a gente chegasse em Pueblo, já que a gente ia tirar um dia de folga e inevitavelmente passaríamos na bicicletaria. “Magina, que absurdo, que desperdício, é só eu remendar as câmaras e elas ficam belezinha. Pra que carregar peso à toa?”, foi a resposta dele. “Mas, Lewis, câmara é tão barato, você joga fora as câmaras remendadas e substitui elas por novas…”, eu retruquei. “De jeito maneira, remendou, resolveu, não gosto de jogar dinheiro fora”, foi a resposta final.

Hoje o trajeto era mais curto, de Halfway para Baker City, que é o ponto final do antepenúltimo mapa e onde a gente tinha mais um warmshowers no aguardo. A gente acordou cedinho porque Tom e Linda tinham nos convidado para ir a um cowboy breakfast que o Lions Club da cidade tinha organizado para arrecadar fundos para sei lá qual causa. Comida barata à vontade, como dizer não? Depois que voltamos, era hora de aproveitar as horas que não gastaríamos pedalando fazendo uns consertinhos. Lewis precisava re-remendar suas câmaras, e eu aproveitei pra trocar a da roda da frente da minha bike, que já fazia alguns dias esvaziava um pouquinho durante a noite, me obrigando a recalibrar o pneu pela manhã. Meu conserto da minha não rolou tão facilmente quanto eu gostaria. O bico da câmara não ficava pra fora o quanto deveria porque, descobri na hora, a bicicletaria em que vou em Sampa acoxambrou a roda, alargando na marra o buraco (que originalmente devia ser para um bico mais estreito) a fim de fazer caber a câmara que a gente usa no Brasil. E o pneu também é super difícil de recolocar depois que você tira. Enfim, fiquei ranzinza, mau-humorado, acabei cortando a mão no processo, Lewis teve que me ajudar, mas depois de uma hora e tanto a bike estava pronta pra cair na estrada.

Linda, Tom, eu e Lewis

Linda, Tom, eu e Lewis

Saímos onze e meia, e achamos por bem almoçar antes de avançar estado adentro. Ou seja, só seguimos rumo uma e tanto da tarde. Mais uma vez acabei indo mais rápido, e quando cheguei na única cidade do meio do caminho, já suspeitando o que deveria estar acontecendo, sentei e fiquei esperando. Vinte minutos depois, Lewis chegou: a câmara remendada não tinha dado conta e tinha se esvaziado de novo. Ele não sabia o que fazer. Eu propus que ele pegasse uma das minhas câmaras extra, alargasse o buraco para o bico da câmara na roda dele (como os caras da oficina de Sampa devem ter feito) e a usasse. Que foi o que ele fez.

Continuamos juntos pelos próximos quilômetros, até que o outro pneu remendado dele também arriou. Lá foi ele remendar de novo. A tarde avançando, ele colando borracha, e eu só pensando como tem desperdícios de dinheiro que evitam desperdícios ainda maiores de tempo. Quando a operação estava quase completa, ele me dispensou para seguir enquanto ele fazia os arremates finais, e eu segui em frente certo de que teria que resgatá-lo de novo.

A noite desaba na estrada

A noite desaba na estrada

Felizmente isso não aconteceu, algumas ladeiras depois ele me alcançou, e a gente chegou já de noite na casa do nosso host. Mais um casal de meia-idade cujos filhos se mandaram para fazer faculdade em algum lugar do país bem longe dos pais, como manda o script estadunidense, Mitch e Kathy. Eles não tinham preparado jantar pra gente mas tinham um quarto com uma cama pra cada um, o que já estava mais que bom. Sendo domingo à noite, corri com Lewis, ainda fantasiado de ciclista, para o restaurante mais próximo antes que ele fechasse. Comemos num restaurante oriental que nos serviu comida até sair pelo ouvido, e só então fui tomar banho.

Como eu disse no começo, sou um colega de viagem fenomenal. Não porque eu ofereço as minhas câmaras, não porque seguro a bike enquanto o outro conserta o pneu vazio. Mas porque resisto a vontade avassaladora de fazer a dancinha da vitória quando o que eu disse que ia acabar acontecendo acontece.