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A última fronteira


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Brownlee Resevoir

Tem momentos em que vale a pena subir a ladeira

E os marcos vão se acabando… É chegada a hora de dizer adeus a Idaho e entrar no último estado dessa travessia toda, Oregon. Que é um estado especial para mim, porque é onde eu fiz meu intercâmbio: vivi de agosto de 1995 a julho de 1996 em Klamath Falls, também conhecido localmente com o suvaco do Oregon. Incidentalmente, revisitarei a cidade semana que vem, quando já terei terminado a pedalada toda.

Mas primeiro tem que chegar lá. Eu e Lewis acordamos razoavelmente cedo, abandonamos o quarto fedentino do salloon e tomamos um café da manhã demorado no único lugar aberto na cidade. Depois, todas as necessaires feitas, pegamos mais uma vez a estrada. Mais tarde que deveríamos, mas não muito.

O Oregon fica do outro lado da represa de Brownlee; ou seja, nossos últimos momentos de Idaho se passaram ladeira abaixo, com um lago azul marinho à esquerda, ziguezagueando pela estrada que contornava todos os montes ao redor do lago. Mais um desses momentos cartão-postal que fazem você se dar conta de como é legal fazer isso.

Welcome to Oregon

A última placa de estado da coleção!

Atravessamos uma ponte pouco depois da represa em si, trombamos com a placa de bem-vindos ao Oregon (a última da coleção!!) e, depois das fotos de praxe, seguimos pelo outro lado do rio. Uma estradinha tortuosa que, muitos quilômetros pra frente, vira 270 graus e volta tudo o que você fez na ida, mas do outro lado da montanha, num V gigante. Muito bonito e tal, mas eu só desejava que os EUA tivessem passado por uma ditadura faraônica 40 anos antes, que teria tratado de fazer um túnel por baixo daquelas montanhas e me poupado uns 25 km de asfalto contornando a serra.

Como está mais quente e eu estou ficando bom de subida, acabei deixando o Lewis pra trás. Depois de uma hora e pouco, parei no único posto-restaurante desse começo de Oregon, deixando a bike bem na frente pra Lewis ver que eu tinha parado. Além da fome, eu precisava urgentemente ir para o banheiro. Entrei na loja e, no corredor de acesso aos banheiros, tinha uma folha manuscrita dizendo que era para apenas para pessoas autorizadas. Eu virei pra perguntar pra balconista se eu não podia usar o banheiro, mas ela tinha acabado de virar e sair da loja sei lá por que razão. Oh well, era emergência, avancei no corredor proibido, me tranquei no banheiro e me aliviei com aquela alegria dos muito apertados. Tentei sair tão sorrateiramente quanto tinha entrado, mas não deu certo. A gorda do balcão me viu, ficou revoltadíssima, disse que tinha avisos de proibido, eu não tinha visto? Vi, mas era emergência. Não importa!, ela grunhiu. Bem, já foi, vai fazer o quê? Essa parte só em pensamento, mas enfim. Comprei um gatorade pra tentar acalmar a balofa, mas ela só fungou enquanto me dava o troco. Ela nem podia me mandar cagar, eu já tinha ido.

Cartoon raccoon

Bichinho que é amassado no asfalto até virar pizza só tem graça em desenho animado

Ainda me demorei na frente do lugar, usando o wi-fi grátis e ignorando a redonda, mas nem sinal do meu coleguinha. Segui caminho certo de que Lewis tinha passado reto e, com sua miopia, nem tinha visto minha bike. Mais duas horas cheguei em Halfway, Oregon, para mais uma estadia cortesia do Warmshowers. Nossos anfitriões da noite na verdade moravam numa fazenda para lá da cidadícula, e quando eu consegui bater na porta deles, já estava anoitecendo. Fui recebido por Tom e Linda, um casalzinho aposentado muito simpático. Nem sinal de Lewis.

Fui conversando com eles enquanto tentava ligar para o coleguinha, mas só dava caixa postal. Esperei 45 minutos, a lua já subindo, e nem sinal. Comecei a ficar preocupado, expliquei a situação para o Tom e ele se ofereceu para procurar o inglesinho de carro. No lusco-fusco da última luz do dia, fomos percorrendo de caminhonete o caminho que eu tinha percorrido há pouco de bike, parando nos dois cafés/restaurantes da cidade na esperança de que ele estivesse comendo neles, mas nada. Seguimos lentamente no reverso da rota, até encontrá-lo pouco depois da entrada de Halfway, pedalando com o farol da bike aceso. O pneu dele tinha furado, ele remendou, os remendos não estavam dando conta, e nas últimas horas o pneu tinha esvaziado quatro vezes; ele enchia, e poucos quilômetros mais pra frente tinha que encher de novo. Deu aleluias que a gente tinha achado ele, e assim voltamos todos motorizadamente para a casa dos nossos hosts.

Ao contrário dos outros anfitriões até agora, eles pediram pra gente acampar do lado de fora, mas prepararam um jantarzinho vegetariano bacana e conversaram com a gente até cansar. Os dois são mais um casal recém-aposentado, que agora se ocupa de várias maneiras. Tom cuida do sítio, ela se envolve com vários trabalhos na comunidade, escreve para o jornal local, e os dois fazem viagens curtas de bicicleta pelo estado. Os dois trabalhavam com gerenciamento de áreas florestais, ela para o governo, ele para a iniciativa privada. As conversas foram longe, ainda mais quando eu descobri que ela também gosta de Rachel Maddow. O irmão dela é missionário no Recife, eles já foram visitá-lo algumas vezes, espero que quando voltarem para o Brasil deem um pulinho em Sampa pra gente jantar junto mais uma vez.