Se tem uma coisa boa de ter feito intercâmbio foi que eu perdi o medo do estrangeiro. Desde que eu voltei dos EUA, em 1996, a idéia de passar o resto dos meus dias em solo nacional passou a ser simplesmente inconcebível. Não que eu deteste o Brasil, muito pelo contrário; eu adoro a minha pátria amada idolatrada salve salve, acho que não tem lugar melhor no mundo. Mas com certeza eu acabaria passando mais anos fora daqui.
Quando eu estava na faculdade eu quase fui pra Montreal passar um ano, mas por razões várias (incluindo uma super-alta do dólar) eu acabei ficando e concluindo minha faculdade em quatro anos. No fim desta eu fiquei sabendo de um programa de bolsa pra fazer pós na Inglaterra, o Chevening, comecei a me informar, e descobri um mestrado em Typo/graphic Studies que muito me interessou.
Mas pra conseguir a bolsa tinha que ter experiência profissional, então me dei alguns anos pra trabalhar. Trabalhei mais um ano e pouco na Recesso, até que, um dia, voltando do serviço, uma tortuosa linha de pensamento me levou ao que pretendo que seja o tema da minha tese de mestrado. Ela veio num estalo, e a partir daí não tinha mais jeito: eu tinha que começar a correr atrás pra que ela virasse realidade.
Fui me informar de novo sobre o Chevening: tinha um pouco mais de um mês pra conseguir tooooda a papelada necessária e fazer a inscrição. Paguei os olhos da cara pra fazer um exame de proficiência em inglês (no qual, para o meu orgulho, tirei 8, de uma nota que ia de 0 a 9), enfrentei a greve da USP pra conseguir meu histórico escolar, deixei as calças na tradutora juramentada, pedi cartas de recomendação pra três pessoas diferentes, e um dia antes da data final estava lá no Conselho Britânico com tudo o que era necessário.
O passo seguinte foi entrar em contato com a universidade. Me mandaram um pacote de informações sobre o que eu precisava pra tentar uma vaga, e, aproveitando muito do que eu já tinha conseguido pra me inscrever no Chevening, enviei todos os documentos pra lá, e me pus a esperar.
O que é uma das piores partes. Depois de alguns meses de espera, comecei a ligar no Conselho Britânico pra saber como ia o andamento das coisas. Eles se esforçavam pra me informar, mas nunca era nada muito certo. Cheguei a atrasar minha viagem pra Santiago um mês porque havia a possibilidade da entrevista do Chevening ser no mês que eu ia; quando eu vi que ia atrasar mais ainda, eu voltei a viagem pro mês que tinha que ser, acabei pagando mais que ia pagar originalmente, mas fui.
O que foi muito sábio da minha parte, porque quando eu voltei eles não tinham dado nem sinal de vida ainda. Continuei ligando, querendo saber quando seriam as benditas entrevistas, agradecendo aos céus que eu não fiquei esperando pra sempre pra fazer a minha viagem.
Eis que, duas semanas depois do meu retorno das terras espanholas, chega um pacotão da universidade em Londres, dizendo que sim, eles muito gostariam que eu fosse lá, me dando uma unconditional offer de vaga. Eram duas da manhã quando eu cheguei no apê e vi o envelope. Fiquei assim, meio bobo, muito emocionado, sabendo no fundo que, meu, fudeu, agora você vai, de alguma maneira você vai pra lá. Feliz da vida, e com um puta cagaço também.
Começou então a busca de uma maneira que viabilizasse esse projeto. Pai e Mãinha não tinham essa grana pra me emprestar; as bolsas todas eram pra prazos mais longos do que o que eu precisava pra dar a resposta se ia ou não. A Editora não ia dar uma força, e, tristeza maior de todas, o Chevening me mandou uma carta, depois de muito tempo, dizendo que eu tenho lindos olhos verdes mas eles não me queriam. Já prestes a adiar a vaga pra 2006, eis que surge o inigualável tio Celso, primo da minha mãe, que fica sabendo das minhas agruras e diz que sim, ele me empresta a grana sideral que custa o mestrado. Pra eu pagar quando voltar, da maneira que conseguir. Nem Papai Noel conseguia fazer melhor.
O que basicamente estabelece que a partir de 2005 esse site será escrito de Londres. Estou aqui vendendo tudo pra juntar o dinheiro que me sustente por algum tempinho, até eu arranjar como me sustentar por lá. Vou fazer mestrado, conhecer ares novos, pessoas diferentes, respirar fogs, dar a cara pra bater e tudo mais que torna a vida interessante. Se tudo der certo, trabalhar em coisas bacanas e que me adicionem profissionalmente; mas me sustentando e estudando, o que vier está bom.
Eu estou aqui procurando onde ficar lá, alternando momentos de euforia com momentos de terror, me dando conta do absurdo que eu me meti, apavorado e cheio de adrenalina. No fundo, é assim que a vida tem que ser.