GOPR1810

Musa frustrada


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Religious nuts

Hein? Que confusão dos infernos…

Pedalando você tem tempo de pensar em tudo, ouvir tudo, imaginar tudo até esgotar. Às vezes a musa pega carona na sua garupa e fica lá soprando ideias, as quais é melhor você anotar logo pra não se perderem na curva.

A gente dividiu o próximo mapa de maneira que a gente escale uma montanha por dia. Calha de dar uma quilometragem boa, e não nos esfalfamos sem necessidade. Richelle foi embora e nos deixou sozinhos em sua casa pela manhã – tinha que pegar o jornalzinho na gráfica e distribui-lo pelos arredores. Montamos nas bikes, com toda a bagagem, e paramos algumas centenas de metros mais pra frente pra tomar café da manhã. E lá, confesso, enrolei. Vi notícia, baixei o disco novo da Alanis Morissette, torrei neurônio no facebook. Ah, os riscos da internet grátis. Saímos mais tarde do que devíamos, mas o dia não era pra ser tão comprido e a ladeira, não tão cruel.

Mas daí é claro que os imprevistos emocionantes acontecem, e a gente foi pego por um trecho em obras de muitos quilômetros, ladeira acima. Tinham tirado o asfalto da estrada toda, ficando só a base raspada, o que já é ruim para os carros, mas para as rodas mais sensíveis das bicicletas é um martírio. Mas o que fazer, não dá pra chamar os escravos namíbios com suas liteiras pra nos deixar no ponto em que o asfalto volta a existir. Só resta pedalar mesmo.

Asfalto raspado

Quero meu asfalto de volta!

E daí me veio a ideia de escrever o post de hoje como se fosse um poema épico, uma Ilíada em que, ao invés dos deuses brincarem com os gregos e os troianos, judiassem dos ciclistas. Mas não podia ser os deuses gregos, que já estão passados e nem sequer entendem o que é uma bicicleta; um embate entre os deuses modernos, Henry Ford judiando dos ciclistas e Nikola Tesla tentando defendê-los. Um post todo em redondilhas maiores rimadas. Em português caipira só pra deixar mais estranho.

Empolguei e passei o dia mastigando isso. Cada coisa que acontecia podia ser ação de um ou de outro. Marimbondo vem voando e bate no meu capacete? Henry Ford. Abba começa a tocar no pior da obra da ladeira? Tesla. Carro de polícia passa ameaçadoramente? Ford. A polícia para dois velhinhos mais pra frente? Tesla (O que será que os velhinhos safadinhos estavam fazendo?). O vento frio faz meu nariz escorrer? Ford. O vento faz o ranho sair de uma narina e subir na outra? Tesla.

45th parallel - halfway between de Equator and the North Pole

O marco mais besta dessa viagem

Foi um dia muito lúdico, e a brincadeira continuou mesmo depois que o asfalto voltou ao normal e eu percorri voando as descidas do outro lado. Pena que nem toda inspiração resiste a horas de exercício. Cheguei em Council e descolei um quarto baratinho em cima de um saloon. Ueba. Tinha até internet. Viva! Tem um restaurante ótimo literalmente do lado, hurra! O quarto era meio fedido, mas com isso se vive. Enfim, alimentado, limpo e conectado, liguei o OpenOffice (open souce é mais bacana, gente) e comecei a escrever:

E bem no finá de agosto
Enrifórdi, lá do arto
Acordô de ovo virado
Revortado, mas disposto
A mexê coa dor dos outro
Que os carro deixa de lado
E não são necessitado
De automóver nem de posto

Bizoiô aqui na terra
E na área de Aidarro
Viu dois cabra que sem carro
(Um que vinha da Inglaterra
Otro vinha do Brasil)
travessava o continente
tão feliz e tão contente
em seus sonho infantil

“Vô buli com os moleque
preles vê que não se manga
do progresso d…

E não consegui escrever mais. Conseguiria fazer, se tivesse tempo para ficar escolhendo palavra, não tivesse tanto sono. E, conforme eu escrevia, eu via que esse lance de fazer história em verso faz com que ela fique cinco vezes mais comprida do que em prosa. Pode ser muito legal, mas pra conseguir completar a obra eu ia ter que escrever até o raiar do dia. Não dava. Foi mal aí, musa, mas vai ficar por isso mesmo.