Epílogo: Barcelona – Madri – São Paulo

Minha cabine no trem pra Barcelona, visto do alto do meu leito quase rente ao teto.
O corredorzinho que levava às cabines.
O Mar Mediterrâneo, e, quem diria, sol!

Os três dias que passei com a Déia e com o Luís em Barcelona foram maravilhosos, perfeitos para o peregrino descansar de suas férias. A Déia é uma amiga minha da faculdade, que, depois de se formar, se casou com o Luiz, e foram os dois fazer pós-graduação em Barcelona. Estiveram se virando nesses meses todos até começarem as aulas trabalhando em lojas de souvenires, dançando e fazendo caipirinha pra gringos, avaliando imóveis e dando aulas de português. Moraram com montes de gentes em alguns apartamentos, e apenas recentemente conseguiram um apê em que podem morar apenas os dois.

Cheguei em Barcelona por volta do meio-dia, numa manhã de sol que contrastava muito com a chuva eterna que vinha encarando até então. O clima estava bem mais quente, dava até pra estender a roupa no varal, que maravilha. Liguei pra Déia e pro Luiz, que me explicaram como chegar no metrô perto da casa deles, e em menos de meia hora nos reencontrávamos depois de meses de distância.

A baleia de ferro na praia de Barcelona.

Os dois foram ótimos e me levaram para todos os cantos de Barcelona, aproveitando o feriado do dia 1 de novembro. Jogamos frisbee na praia artificial e visitamos o bairro gótico no primeiro dia, no dia seguinte visitamos a catedral da Santíssima Trindade e as casas feitas pelo Gaudí, e, no último dia, fomos eu e Déia até o Parque Güel, depois de andar um pouco pelo centro assuntando faculdades. O tempo entre passeios era gasto com conversas deliciosas e refeições saborosas preparadas pelo Luiz na microcozinha do apê deles. E lendo Persépolis, uma HQ escrita por uma iraniana, contando sua vida no Irã dos aiatolás e como foi parar na Europa.

Catedral de Nossa Senhora dos Navegantes.
Outra catedral de Barcelona.
Velas acesas com os pedidos dos fiéis. 3 euros cada..
Minhas confortáveis instalações na sala da Déia e do Luiz.
Eu, Déia e Luiz no metrô de Barcelona.

Além disso, pude tomar banhos realmente quentes, usar um banheiro limpinho (mas tinha que lembrar de virar o puxadorzinho da privada depois de puxar a desgarga) e lavar toda a minha roupa de uma vez, ficando alguns dias sem o uniforme de peregrino, fantasiado de Luiz.

Também foi na casa da Déia que eu finalmente me dei conta de que aquela coceira persistente e insistente e muitas vezes irritante, que vinha me acompanhando a quase uma semana, era porque eu estava infestado de carrapatos. A experiência de puxar um pontinho preto dos seus pelos e descobrir que ele tem perninhas é meio chocante para meninos asseados e urbanos como eu, que não costumam pegar essas coisas.

Catedral da Santíssima Trindade, do Gaudí, ainda em construção.
Eu e Déia, fantasiado de marido dela.
Eu e Luizinho Peres na noite de Barcelona.
Uma das casas com a fachada feita pelo Gaudi.
Eu e o lagarto na entrada do pargue Güel.
Close no lagarto.
Pilar em forma de lavadeira no parque.

No dia de ir embora, comecei a procurar minhas roupas brancas no varalzinho deles e não encontrava. Daí, depois de pensar um pouco e olhar algumas roupas que a Déia dizia que não eram do Luiz, me dei conta de que tinha colocado minhas roupas brancas pra lavar com as coloridas, e agora estavam todas cinza-escuro.

O ônibus pra Madri conseguiu a proeza de ser infinitamente mais desconfortável que qualquer assento de avião que eu tivesse tomado até então. O encosto mal se inclinava, e um calombo entre os dois assentos não permitia que se deitasse confortavelmente usando o lugar vazio ao lado do meu. Foram doze horas de viagem praticamente insones. No meio da noite fizeram uma parada num posto, onde comprei uma revista espanhola com a Cicarelli na capa. Cheguei em Madri e peguei o primeiro metrô do dia em direção ao aeroporto. Na livraria, fiquei com muita coceira de comprar o livro novo do Gabriel García Márquez, mas o dinheiro que eu tinha não dava, então comprei um pocket da Isabel Allende e uma Muy Interesante Júnior pra levar pro pessoal da Recreio.

A revista com a Cicarelli na capa, e o livro que estava lendo, El Paraiso en la otra esquina, do Mario Vargas LLosa.
Ex-peregrino insone no busão pra Madri.
Estação Aeropuerto, em Madri.

Indo embarcar, não me deixaram entrar no avião com o canivetinho-tesoura que tanto tinha me servido durante a viagem, mas deixei-o com o tio do raio-x sem dó. O vôo também foi mal dormido, mas muito mais confortável que o ônibus. Quando o telão não estava mostrando um filme, mostravam a localização atual do aeroplano e sua velocidade: 700 km por hora. O que eu tinha demorado 23 dias pra percorrer, ultrapassávamos em uma hora. Conforme fomos nos aproximamos de São Paulo foi me dando uma euforia imensa, uma saudade do meu país e da minha cidade, a convicção de que o mundo é enorme, mas o Brasil é muito mais legal que o resto do mundo. Quase que corri pela alfândega pra chegar no mundo de verdade de novo.

Ana Paula e Mãinha esperando por mim.
Eu com o pai no portão de saída.
O peregrino à casa torna.

Pai, Mãinha e Ana Paula foram me buscar no aeroporto. A alegria do reencontro foi quase desmedida, mas foi bom. Fomos pra Campinas, onde comemos uma pizza em família. No dia seguinte, de manhã, tomei o ônibus pra Sampa, pra já ir trabalhar. A vida real começava de novo.