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Ciclistas fantasiados chamam atenção. Em bicicletas carregadíssimas, ainda mais. Quando um deles tem uma câmera no cocoruto, então, nem se fala. E quando eles abrem a boca e falam com sotaque, daí danou-se: as pessoas se sentem compelidas a perguntar os ondes, comos, quandos e porquês. Isso é tão comum que eu e Lewis já temos todo um jogralzinho ensaiado ao longo de inúmeros interrogatórios de transeuntes:
L: Eu sou da Inglaterra!
M!: Eu sou do Brasil!
L: Eu comecei em Yorktow, Virgínia!
M!: E eu comecei em Washington, D.C.! (explicar que fui pra Maryland molhar as rodas no mar é muito complicado, as pessoas em geral não merecem o esforço)
L: Nós vamos até Florence, no Óregon!
M!: Nós nos conhecemos num albergue em Kentucky e estamos pedalando juntos desde então!
L: No começo fez muito calor!
M!: Agora temos que lidar com o frio!
Os dois: Tchaaaans!
Hoje eu saí bem antes que Lewis, que resolveu ficar mais tempo no restaurante do resort aproveitando a internet. A rota do dia era de 105 km quase só de descida bem gradual, mas sem um lugar para beber uma aguinha que fosse; eu achava melhor sair logo com a dispensa de barrinhas cheia, e assim tirar essa desolação da frente logo.
Desolação mais desoladora. O dia inteiro pedalando na interstate 12, com poucos carros passando, o rio Lochsa sempre à esquerda, muralhas de montanhas e pinheiros em todos os outros lados. No começo do dia um aviso da polícia rodoviária alertava para a presença de incêndios florestais na região, cheguei a pensar que haveria altas adrenalinas ao longo do dia, aviões jogando água sobre mim e tal, mas nada além de uma nuvem de fumaça distante.
A paisagem sem dúvida é muito bonita; esta é uma área particularmente remota por conta do monte de montanhas difíceis de transpor. A estrada tem vários painéis explicando os pontos históricos, e assim eu aprendi que ninguém tinha conseguido fazer uma estrada por lá até 1960; que Lewis e Clark pastaram horrores nessa região em sua histórica viagem do Mississippi até o oceano Pacífico, xingaram essas serras de todos os nomes em seus diários, e sem a ajuda dos índios locais jamais teriam sucedido em sua aventura; e que o rio Lochsa é berçário de salmões e de patos-mandarim, então não é pra você mexer em nada na beira do rio. Ciclismo também é cultura.
Muito bonito mas também meio monótona; depois dos 106 km eu finalmente alcancei o próximo respingo de civilização na estrada, um lugarzinho chamado Lowell que informa na placa de boas-vindas que sua população era de 24 habitantes, mas agora tem 23. Não passa de um restaurante com posto de gasolina e mercadinho de um lado da estrada, e um motel/camping do outro. Mas a máxima é que, tendo chuveiro aquecido, tá valendo. Entrei no restaurante e pedi um almoço; vinte minutos depois Lewis chegou. Ele tinha saído uma hora e tanto depois de mim, mas mal tinha parado pra comer suas barrinhas no percurso e assim diminuiu a distância desse que lhes escreve, e que para para comer e ler painéis de beira de estrada.

A paisagem linda da interstate 12 com o rio Lochsa. As outras 57 fotos que eu tirei no dia são iguais a essa
Depois do almoço tardio, cruzamos a estrada e fizemos check-in no camping. Foi o tempo de conversar com a famiglia no skype (sim, o camping tem internet) e tomar banho, e já era seis e meia. A recepcionista do camping tinha avisado que o restaurante do outro lado fechava às oito, e é o único lugar que tem pra comer. Portanto tivemos que suceder o almoço tardio com um jantar adiantado, na mesma bat-mesa, com o mesmo bat-cardápio e a mesma bat-garçonete.
Pelo menos sobrou tempo para colocar o blog em dia. Agora, enquanto termino de escrever esse post sobre hoje, quieto sentado perto do escritório do camping, veados passam cautelosamente de um lado para outro. Estou na esperança de que algum passe perto o suficiente para tirar uma foto.
Adoro escrever nesse blog, mas a sensação de que é que nem fazer faxina é punk. Você deixa o blog todo atualizado, amanhã já defasou de novo. Dureza.



