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Depois de tanto sofrimento lutando contra os ventos ontem, hoje era dia de compensar pedalando o que tinha faltado no dia anterior e o que estava programado para hoje. A ventania incessante tinha feito a gente interromper o trajeto uns 30 quilômetros antes do planejado, hora de se esforçar um pouco e não deixar o cronograma desabar. Dois fatores contavam a favor: depois de mais uma serra, tínhamos todo o resto do trajeto de descida; e no fim do dia, tinha mais um host de WarmShowers nos esperando.
O dia começou frio, frio, frio de tudo. Pelo menos pra mim. Lewis, sendo britânico, estava praticamente andando de regata. Pra variar, saí na frente; Lewis precisava reorganizar as coisas na bagagem dele e ia levar um tempo. O termômetro marcava 9 graus na hora que saí do hotel, dez da manhã. Ainda abalado com as experiências do dia anterior, cada vez que começava a soprar um vento mais forte eu já balançava nas bases e achava que ia começar mais uma sessão de tortura. Mas parece que os ventos leem esse blog, porque foram respeitosos durante todo o dia.
Depois de uma hora e meia de estrada, cheguei em Wisdom, uma cidade minúscula porém com um restaurante, e decidi parar para almoçar mais cedo por lá: em seguida teria mais 50 km sem um lugar qualquer pra parar, os quais incluíam subir a serra. Assim que estacionei na frente do restaurante, chegou um tiozão vestido de ciclista, com uma roda de bicicleta na mão. “Oi! Eu estou com dificuldade de consertar o raio dessa roda, você por acaso não entende disso?”, ele perguntou. “Putz, desculpa”, eu respondi, “não entendo nada de como colocar raio em bike, mas meu colega de viagem deve chegar em uns 20 minutos e entende TUDO a respeito.” E entende mesmo, o único livro que eu sei que ele leu até agora era sobre como montar rodas de bicicleta.
Me sentei pra almoçar, o tiozão se convidou pra sentar na minha mesa e almoçar comigo, e assim, sem muita opção, começamos a conversar. No fim das contas, valeu a prosa: além de me indicar algumas soluções para algumas questões logísticas que me preocupam quando eu terminar a viagem, ele me contou que tinha participado do grupo original que percorreu pela primeira vez a Transamerica Trail, em 1976.
“Na verdade, não participei dela inteira, só da metade final, de Illinois até a costa Leste. Fui com meu irmão, tinha centenas de pessoas percorrendo as estradas juntas”. “Jura? Nossa, achei que eram bem menos. Vocês devem ter feito uma baita festa quando chegaram no oceano, né?” “Ô se fizemos! Na verdade, tinha festa toda noite!”. Centenas de ciclistas festejando todas as noites. Esse grupo não devia prestar.
Infelizmente Lewis não apareceu (descobri depois que ele tinha resolvido passar direto e só almoçar depois da serra) e não consegui ajudar o tiozão. Saí de Wisdom com o caderninho cheio de dicas, no entanto, e mais tranquilo segui serra acima. A diferença com o dia anterior não podia ser maior: mais algumas horas pedalando, e no mesmo período que eu tinha sofrido tanto pra fazer 50 km, eu já tinha feito 100 e voava montanha abaixo, feliz da vida.
Apesar de tanta descida, sempre tem que ter algumas emoções no caminho, né. Vi umas vacas perto de uma cerca, achei que ia dar uma boa foto, fui parar a bike perto das bovinas e, quando freei com mais força, toin, o freio do pneu da frente quebrou. Um problema pequeno e complicado demais pra descrever aqui, meio que culpa minha, mas que impedia de brecar completamente. Felizmente não quebrou quando eu descia a ladeira a 50 km/h. Dei um jeitinho que meio que fez o freio funcionar novamente, mas tive que parar várias vezes pra jeitinhar o jeitinho mais ainda. Mais pra frente, a corrente saltou da terceira marcha da frente para o além e ficou presa no protetor das engrenagens do pedal. Lá fui eu mexer na corrente, força aqui, força ali, puxadinhas e empurrões, até conseguir recolocar a corrente em seu devido lugar. A essa altura eu estava com os dedos pretos de graxa, já eram seis e meia da tarde, começava a ficar escuro, a bateria do celular no osso e uns quinze quilômetros pela frente.
Mas pra baixo todo santo ajuda, e eles fizeram um multirão pra que eu chegasse no meu WarmShowers ainda de dia, com o celular ainda vivo e a bicicletas ainda inteira. Talvez fosse pra me fazer merecer os hosts daquela noite, um dos melhores até agora, Warren e Peggy.
Os dois são recém-aposentados, ele consultor de RH, ela promotora. Ele agora se dedica a criar abelhas, ela dá aulas na universidade de Montana e às vezes cobre férias no tribunal. Eles têm uma casa supergrande, com dois quartos sobrando – ou seja, tive um quarto inteirinho pra mim, com cama gigante, dois travesseiros e cobertas quentinhas. Ao longo dos anos já tinham recebido vários estudantes intercambistas pela AFS; eu, como ex-intercambista pela AFS, fiz a festa trocando figurinhas e histórias com eles. Uma das intercambistas passadas deles é brasileira, e com ela eles aprenderam a fazer feijoada, que prepararam para a janta já que sabiam que teriam visita brasileira. Que amores. E ainda por cima fazem campanha pro Obama.
Lewis tinha uma areia no olho que não saía, e Warren o levou para a farmácia pra tentar comprar algo que resolvesse o problema. Enquanto eles estavam fora, eu ajudei Peggy a tirar a mesa, sempre conversando. Ela me contou sobre os tempos em que trabalhava como promotora, me disse que muitas das experiências dela batiam com o que rola no Law & Order, do qual ela é fã, especialmente o Special Victims Unit. E assim o tricô aumentou ainda mais, já que assisto esse seriado aos montes. A certa altura ela confessou: “Ser promotor não é fácil, você tem sempre que procurar o pior nas pessoas. Depois de dezesseis anos exercendo a profissão, teve um dia que chegou na minha mesa um caso de um homem que tinha abusado de uma criança de três anos. E eu olhei praquilo de disse ‘nhé…’. Quando eu cheguei em casa, percebi o absurdo daquilo, como eu tinha ficado insensível! Decidi que era hora de mudar de profissão, e logo depois surgiu a oportunidade de dar aula na universidade.” É, a vida imita a ficção.



