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Viajar de bike por várias semanas te leva aos limites da civilização. Usar a mesma roupa mais de uma vez em dias diferentes não incomoda mais – você adota a estratégia da mala autolimpante e tudo bem.
(O que, não conhece a estratégia da mala autolimpante? É simples, aprendi com o povo da Placar: você pega a peça suja e coloca no fundo da mala. Faz isso com cada peça que usar ao longo da viagem, sempre colocando a mais recente no fundo. Quando uma peça emergir para a superfície, dias depois, é como se estivesse limpa. Não é lindo?)
Voltando, você usa a mesma roupa vários dias, porque não é fácil ter tempo/lugar/disposição pra lavar a roupa. Você almoça hambúrguer e de repente também janta hambúrguer, porque é o que tem pra servir onde você está. Você mija em qualquer lugar, porque já passou o dia mijando pela estrada mesmo, então desacostuma a ter que andar dois metros que seja por um banheiro. Peido, então, já nem faço mais esforço pra não fazer barulho. Desodorante, faz um mês e meio que não uso: enquanto pedalo, não tem utilidade, e enquanto não pedalo, não tem quem chegue perto anyway, então pra quê?
(Outro parênteses: se eu mijo um monte na estrada, precisa ver meu coleguinha Lewis. Ele para de meia em meia hora. Tenho vontade de falar pra ele que se ele bebesse algo além de café e cerveja isso resolveria, mas não me dou mais essas responsabilidades sobre a vida alheia.)
Tem pequenos atos que te tornam mais civilizado. Essa manhã, por exemplo, resolvi que era hora de cortar o cabelo, porque estava com o cocoruto todo por igual de quando eu raspei a cabeça pra me livrar das madeixas louras. No lado do restaurante onde tomei café da manhã tinha uma barbearia, então entrei lá e pedi pra passar uma máquina no meu cabelo. Claro que daí você tem que se conformar com a qualidade que se encontra na rua principal de uma cidadezinha de dez ruas. Minha ideia era fazer um moicano, mas a tia que empunhava a maquininha achou isso muito estranho, não conseguiu fazer direito, daí eu pedi pra passar máquina atrás também, o que ela achou muito mais normal. Demorou horrores pra ela conseguir deixar um lado igual ao outro, mas depois de várias tentativas ficou parelho. Saí de lá com um corte de recruta do exército, mas pelo menos tinha corte, e não a esfera desforme que estava antes.
O dia de pedalada transcorreu sem emoções: tínhamos uma grande subida logo pela manhã, depois Montana ofereceu uma sucessão de rolling hills que muito lembrou os de Kentucky. O jeito da grama, as plantações, tudo lembra muito o interior do estado de São Paulo, com a diferença que acho que não investem TANTO em irrigação em SP quanto investem em Montana, os aparelhos de irrigação estão por todas as partes. Outra novidade foi o surgimento de ovelhas ao grupo de animais criados nas fazendas.
O estado de Montana permite o jogo, então se vê cassinos por todos os cantos. Chega a perder a graça: o posto de gasolina tem uma loja de conveniência e um cassinozinho, o boteco tem um canto-cassino, existe franquia de cassinos com lojas em várias cidades. Nada daquele glamour todo que a gente associa a cassino, à la Las Vegas: os cassinos são pequenos e não pretendem mais que arrancar os trocados da população local. Algumas vezes se vê um sinal de cassino numa janela e tudo o que o estabelecimento tem é algumas máquinas caça-níqueis. Nada chique.
Encerramos o dia na cidade de Dillon, de tamanho respeitável, com um museu do Velho Oeste (que já estava fechado quando chegamos) e várias estátuas de cavalos, caubóis e xerifes espalhadas pelos quarteirões. Não pude deixar de reparar na ironia: nesse dia, fui de Ennis a Dillon, parando numa cidade de caubóis; meu gibi favorito da adolescência era o Preacher, escrito por Garth Ennis e desenhado por Steve Dillon, que tem como um dos grandes temas o jeito faroeste de ser. Nerd, eu?



