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Gêisers


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A guarda explica geologia

Guarda florestal explicando geologia para os turistas

Acordar em camping nesse clima frio é sempre dureza. Existem pessoas que adoram essa comunhão com a natureza, o barulho do vento batendo nos galhos, o cheirinho de orvalho, blá blá blá. Eu sou urbanóide, gosto de endredon, gosto de ligar o laptop assim que acordo e assistir podcast, gosto de ter duas horas para virar gente antes de me apresentar à sociedade. Nada disso está disponível quando você acorda numa barraca gélida, que ainda por cima tem que ser desmontada logo mais.

Menos mal que o dia acordou um pouco menos frio, e a pauta do dia era uma das mais aguardadas da viagem: os gêisers de Yellowstone. A maior parte do parque é uma cratera vulcânica; o vulcão não entra em erupção há 650 mil anos, mas a lava ainda está próxima da superfície o suficiente para esquentar os lençóis freáticos da região. Isso resulta em vários lagos de água quente, e muitos e muitos gêisers, que são água quente subterrânea que esguicha para a superfície. O maior deles é o gêiser de Old Faithful, que entra em atividade a cada 90 minutos e lança água a uns 10 metros de altura.

Depois de mais um café da manhã num restaurante metido a besta cheio de garçons estrangeiros, tomamos rumo, e como sempre logo Lewis se perdeu nas curvas da estrada do parque. Como eu sou mais eu, fui pedalando feliz, vendo as árvores e as paisagens, até chegar em Old Faithful, algumas horas depois.

Há todo um complexo “rústico-chic” ao redor do gêiser, com muitas lojas, restaurantes, e uma exposição que conta tudo que você pode querer saber sobre gêisers, geologia e a fauna do parque. Muito bacana mesmo. E, em qualquer lugar mais visível, há uma plaquinha avisando que a próxima erupção do gêiser está prevista pra tal horário, mais ou menos dez minutos. Eu, que não sou besta, prendi a bicicleta, comi qualquer besteira pra enganar o estômago, e estava lá posicionado num banco na frente do gêiser meia hora antes do horário previsto.

Old Faithful

Old Faithful soltando água fervendo para o deleite dos turistas

O que mais tem em atrações turísticas do mundo todo? Sim, JAPONESES. E essa não era exceção. Enquanto o povo esperava e os japoneses se aglomeravam por todos os espaços, uma guarda florestal com várias placas explicava aos brados os fatos geológicos, a história do parque, e respondia perguntas. Muito legal. Um pouquinho depois do horário esperado a água começou a espirrar, e mesmo de longe é algo extraordinário mesmo. Vale muito a pena ver.

Depois que a água baixou e o gêiser voltou a soltar apenas vapor, a manada de turistas seguiu pros restaurantes, e minhas pernas fortinhas de ciclista foram úteis pra eu chegar antes e conseguir escapar das filas. Quando já tinha saído da fila do pedido pra fila de receber comida, chegou Lewis, que também tinha visto o gêiser em ação, mas no outro lado. Quase que perdeu o espetáculo, porque, com sua dificuldade de ficar longe da bicicleta, entrou na área da plateia do gêiser montado nela e levou bronca de um guarda quando o esguicho estava prestes a ocorrer. Para sua sorte, deu tempo de ele encostar a bike num lugar mais apropriado e voltar para ver a erupção.

Sapphire pool

Sapphire Pool, com sua cratera de azul impossível

Mas nóia é nóia. Depois de almoçados, seguimos o caminho, que passa por uma área cheia e cheia de gêisers. Todos devidamente sinalizados e com passarelas para os turistas chegarem o mais perto deles com segurança, porque os gringos são profissa. Paramos no primeiro cluster de gêisers, alguns com cores impossíveis, muito bonito de se ver. Depois que vimos os mais próximos da estrada, eu comecei a avançar para os mais distantes, e ele disse que ia voltar. “As bicicletas não estão presas, cara.” Sinceramente, dificilmente alguém quer roubar uma bicicleta carregada como as nossas. E qualquer coisa, é só prender, temos travas. Mas ele não gosta de deixar a bicicleta dele longe da vista. Olhei pra ele e disse “Você jura que vai deixar de ver os gêisers todos aqui por conta da bike? Deixa de ser paranoico!”. Ele meio que foi, mas resistiu, avançou um pouco, viu mais alguns gêisers de azul improvável, mas daí cedeu aos próprios medos, disse que tinha que mijar de qualquer jeito e lá se foi pra bicicleta. Eu vi todos os gêisers daquela área com calma, me divertindo com a água que espirra da terra, e depois de meia hora voltei pra bicicleta. Ele já tinha ido.

Chromatic Pool

Chromatic Pool, com o chão cheio de cores

Paciência. Quilômetros mais pra frente havia um outro cluster geotermal, com lagos soltando colunas de vapor que davam pra ver de longe. Sozinho e tomando Activia com Johnny Walker pra alcançar meu coleguinha, encostei a bike de novo e refestelei os olhos com os lagos ferventes (mas ignorei o cheiro de enxofre da fumaça toda). Muitas e muitas fotos depois, depois de desviar de muitos e muitos chineses e japoneses e alemães, voltei para a estrada, só lamentando que o inglesinho, todo ligado em natureza e metido a fotógrafo, com certeza não tinha parado lá porque não podia se afastar de sua magrela.

Muitos e muitos quilômetros depois, encontrei-o na estrada, papeando animadamente com um casal de ciclistas que, descobri em seguida, também era britânico. Eles começaram a pedalar no Alasca e seguiriam até o sul da Argentina. Tá vendo, gente, tem povo mais maluco que eu. O papo todo pelo menos serviu para eu alcançar meu coleguinha, e assim a gente conseguir tirar foto um do outro quando chegamos na mixa placa que marca a fronteira entre Wyoming e Montana. Mais um estado pro bolso.

Olá Montana!

Olá Montana!

Depois de tantos dias acampando e congelando pela manhã, pedi que pelo menos essa noite a gente ficasse num albergue ou motel, e Lewis concordou. Assim nos hospedamos num hotel com exatos cem anos, construído com toras de madeira, meio caro mas com todas as facilidades da vida civilizada.